língua portuguesa

Aqui, não se trata do “a” sem acento, como na frase “A medida que ele tomou é drástica”. Não é esse o caso. O que estamos discutindo é a locução conjuntiva “à medida que”, a qual alguns preferem, erroneamente, substituir por “a medida em que”. A forma correta é “à medida que”.

Apenas um lembrete: “locução conjuntiva” é todo grupo de palavras que relaciona duas ou mais orações ou dois ou mais termos de natureza semelhante.

À proporção que chovia…

“À medida que” significa o mesmo que à proporção que”.

À medida que o mês corre, o bolso esvazia.

Trata-se de uma locução conjuntiva com valor de proporção, introduzindo orações subordinadas adverbiais de proporção.

Há ainda a locução “na medida em que”, que vem sendo usada na imprensa e em muitos textos co     m valor causal.

O governo não conseguiu resolver o problema
na medida em que não enfrentou suas verdadeiras causas.

Ou seja,

O governo não conseguiu resolver o problema
porque não enfrentou suas verdadeiras causas.

Alguns condenam o uso de “na medida em que” argumentando que não há registro histórico dessa forma na língua. Mas o fato é que essa construção já se tornou rotina, mesmo entre excelentes escritores.

O que não é aceitável sob hipótese alguma é escrever “à medida em que”.

“A par de” ou “ao par de”?

Não é raro ouvirmos alguém dizer: “Estou ao par da situação”. Há algum problema nessa frase? Evidentemente não quanto ao sentido, que não nos cabe pôr em dúvida nesse caso, mas quanto à gramática.

O problema está em “ao par de”. A pessoa deveria dizer antes “Estou a par da situação” para indicar que ela está ciente da situação, está inteirada do que está ocorrendo.

Usa-se “ao par” apenas para referir equivalência de valor entre moedas:

O dólar está ao par do euro.

Quando não for esse o sentido pretendido, recomenda-se o emprego de “a par”:

Estou a par da situação.
Maria percebeu que não estava a par dos últimos acontecimentos.

“A sós” e “só”

Qual a forma correta?

“Ela quer ficar a só
ou
“Ela quer ficar a sós“?

O programa foi às ruas saber a opinião de algumas pessoas. De sete entrevistados, três erraram e quatro utilizaram a forma correta:

Ela quer ficar a sós.

Quando utilizamos a preposição “a“, a expressão é fixa, invariável, nunca se flexiona:

Eu quero ficar a sós.
Ela quer ficar a sós.
Nós queremos ficar a sós.
Elas querem ficar a sós.

E se tirarmos a preposição “a“? Nesse caso “sós” passa a ser adjetivo e, dessa forma, precisa concordar em número com o pronome ou substantivo com que se relaciona:

Eu quero ficar .
Ela quer ficar .
Nós queremos ficar sós.
Elas querem ficar sós.

Uma dica: o ““, nesse segundo caso, equivale a “sozinho“.
Substitua uma palavra pela outra e veja se a frase faz sentido: “Eu quero ficar a sós.” / “Eu quero ficar a sozinhos.” Não faz o menor sentido, não é?

Mas no outro caso a substituição dá certo. Não há como errar!

Eu quero ficar . / Eu quero ficar sozinho.
Ela quer ficar . / Ela quer ficar sozinha.
Nós queremos ficar sós. / Nós queremos ficar sozinhos.
Elas querem ficar sós.” / “Elas querem ficar sozinhas.

Diferença entre “mal” e “mau”

Numa de suas provas, a FUVEST, que faz o vestibular da USP, Universidade de São Paulo, pediu aos alunos que escrevessem três frases com a palavra “mal”. Mas era necessário usar os três valores gramaticais da palavra “mal”.
Todo mundo se lembra imediatamente de dois desses valores. “Mal” pode ser advérbio, como ocorre na frase:

Aquele jogador joga mal

em que “mal” designa o modo como alguém joga.

“Mal” também pode ser substantivo:

Nunca pratique o mal; pratique sempre o bem.

E o terceiro valor gramatical da palavra”mal”? É o de conjunção indicativa de tempo e equivalendo a “logo que”, “assim que”, “imediatamente depois que”:

Assim que você saiu
Logo que você saiu
Mal você saiu, ela chegou

Esse “mal” se escreve com “l” e é conjunção.
Outra dúvida em relação a essa palavrinha diz respeito a sua grafia. Isso ocorre porque também existe “mau”, com “u”. Para resolver essa questão, há uma dica muito útil: mau” com “u” se opõe a “bom”; mal” com “l” se opõe a “bem”.

Fulano joga bem.
Fulano joga mal.

Fulano é bom jogador.
Fulano é mau jogador.

Caso você esqueça quem é o contrário de quem, coloque em ordem alfabética: “mal” vem antes de mau” e “bem” vem antes de “bom”. Pronto: está resolvido o assunto.

“E” com valor de “mas”

Há alguns anos a cantora Rita Lee gravou uma música de grande sucesso, “Saúde”, em que se dizia a certa altura: “Como vai? Tudo bem. Apesar, contudo, todavia, mas, porém…”
Com exceção da palavra “apesar”, temos aí uma lista de advérbios adversativos:

contudo – todavia – mas – porém – entretanto

Na vida escolar acabamos memorizando pequenas listas como essa. E memorizamos também que a palavra “e” é uma conjunção aditiva, transmitindo a idéia de soma. “Aditiva” vem de “adição”; ambas são palavras cognatas.

Mas será que o “e” é sempre usado estritamente para somar? Veja este trecho da letra de “Te ver”, canção gravada pelo grupo mineiro Skank:

Te ver e não te querer
é improvável, é impossível
Te ter e ter que esquecer
é insuportável, é dor
incrível…

Agora compare as frases abaixo:

Te ver e não te querer…
Ele estuda e trabalha.

Na sua opinião, a palavra “e” tem o mesmo sentido em ambos os casos? Repare como na primeira frase o “e” pode ser substituído pelo advérbio “mas”:

Te ver, mas não te querer

Veja outros exemplos em que o “e” aparece na frase com um matiz adversativo:

Deus cura e o médico manda a conta
Deus cura, mas o médico manda a conta
O amor é grande e cabe no breve ato de beijar
O amor é grande, mas cabe no breve ato de beijar

A conjunção “e”, fundamentalmente aditiva, pode ganhar, conforme o contexto, uma tonalidade mais adversativa, ainda que continue, sintaticamente, a funcionar como aditiva.

“No telefone” ou “ao telefone”?

“Estar no telefone” ou “estar ao telefone”: qual a forma correta? Na verdade, não há consenso em relação a isso.

Por surpreendente que possa ser, um gramático tido como conservador, Napoleão Mendes de Almeida, defende a tese de que o correto é “estar no telefone”, exatamente a forma consagrada no dia-a-dia no Brasil. Argumenta ele que seria galicismo, francesismo, dizer “ao telefone”.

Napoleão, de certa forma, é uma voz mais ou menos isolada. A maioria dos autores afirma que a preposição exigida é a preposição “a”, pois esta indica proximidade. É o que ocorre em exemplos como os seguintes:

Falou ao telefone
Sentou-se à mesa

A construção “estar ao telefone” causa menos polêmica do que “estar no telefone”. Ainda que o uso cotidiano seja inegavelmente “estar no telefone”.

Partículas de realce

Vou-me embora pra Pasárgada
lá sou amigo do rei…

Todo mundo conhece esses versos de Manuel Bandeira, não é? Será que o pronome “me”, de “Vou-me…”, pode ser retirado da frase? Vejamos:

Vou embora pra Pasárgada.

Essa frase está perfeitamente correta. na primeira versão, o pronome tem a função de realce, de reforço de uma idéia. Esse tipo de palavra, que se acrescenta a uma frase para dar ênfase, chama-se “partícula expletiva“. Ela tem outras denominações: “expressão de realce”, “palavra de realce”, “palavra expletiva”, “expressão expletiva” ou ainda “partícula de realce”.

Algumas palavras têm esse papel na língua portuguesa, como o pronome oblíquo “me“, combinado a determinados verbos, como “ir”:

Vou embora…
Vou-me embora…

A palavra “que” também é muito usada dessa forma. Veja este trecho da letra da canção “Quando”, de Roberto e Erasmo Carlos, regravada pelo Barão Vermelho:

Quando você se separou de mim
quase que a minha vida teve fim
sofri, chorei tanto que nem sei
tudo que chorei por você, por você…

Esse “que” em negrito, na letra da canção, pode ser tirado da frase, não é? O verso ficaria “Quase a minha vida teve fim”. A palavra foi colocada por motivo de ênfase. Vamos a mais um exemplo, a letra de “Influência do jazz”, de Carlos Lyra:

… Cadê o tal gingado que mexe com a gente
coitado do meu samba, mudou de repente
influência do jazz quase que morreu
e acaba morrendo está quase morrendo
não percebeu…

Podemos tirar a palavra “que” do verso “quase que morreu” sem alterar a estrutura ou o sentido da frase. Ela tem aqui função meramente expressiva. Mas é bom observar que esse recurso aparece muito em textos poéticos ou literários mais livres. Alguns gramáticos não apreciam esse tipo de coisa em textos mais formais. No entanto vale saber que a expressão expletiva existe e é um fato da língua portuguesa.

“Pernas, pra que vos quero?”

Há uma expressão que provoca calafrios e é usada justamente em situações em que se está apavorado com algo: “Eu, heim?!! Pernas pra que te quero!”.

O “Nossa língua portuguesa” foi às ruas e propôs as seguintes frases aos passantes, pedindo-lhes que dissessem qual consideravam correta:

Pernas, pra que te quero?
Pernas, pra que vos quero?

Observem: “pernas” é plural e “te” é singular. Logo, essas palavras, sendo de número diverso, não combinam. A expressão correta é, portanto, “pernas, pra que vos quero?”.

Outra expressão, também muito usada, é “grosso modo”. Normalmente as pessoas dizem “a grosso modo”. Mas a expressão é latina e deve ser dita na forma original, “grosso modo”, que significa “de modo grosseiro, impreciso”.

Quem é “você”: segunda ou terceira pessoa?

O pronome “você” pertence à segunda pessoa ou pertence à terceira pessoa do singular? Veja o exemplo que temos neste trecho da canção “Ana Júlia”, de Marcelo Camelo e gravada por Los Hermanos:

Quem te vê passar assim por mim
não sabe o que é sofrer
ter que ver você assim
sempre tão linda
contemplar o sol do teu olhar
perder você no ar
na certeza de um amor
me achar um nada

É bom lembrar a origem da palavra “você”:

Vossa Mercê > Vossemecê > Vosmecê > você

De início o pronome de respeito “Vossa Mercê” era um pronome de formalidade, mas acabou se tornando, no Brasil, pronome de intimidade, que se usa entre iguais. Em Portugal a situação é diferente:você” é ou pronome de respeito, ou um pronome relativamente neutro.
“Você” conjuga verbo na terceira pessoa:

Você é
você pode
você diz

Em se tratando de língua padrão, os pronomes associados devem ser da terceira pessoa: “seu”, “o”, “a”, “lhe” etc. Ocorre que, na estrutura do discurso,”você”é a pessoa a quem se fala e, portanto, da segunda pessoa.

Para que não fique nenhuma dúvida: na estrutura do discurso, “você”é da segunda pessoa, é o interlocutor; por outro lado, “você”, como os demais pronomes de tratamento (senhor, vossa senhoria etc.), pede o verbo conjugado na terceira pessoa, e não na segunda pessoa.

Se não” e “senão”

Qual é a forma correta: “se não” ou “senão”? Essa dúvida foi enviada, por e-mail, pela telespectadora Mirian Keller.

Para explicar isso, vamos observar um trecho da canção “Nos Lençóis desse Reggae”, de Zélia Duncan:

Nos lençóis desse reggae
passagem pra Marrakesh
dono do impulso que empurra o coração
e o coração, pra vida.
Não me negue, só me reggae
só me esfregue quando eu pedir
e eu peço sim
senão pode ferir o dia
todo cinza que eu trouxe pra nós dois…

Esse “senão” que Zélia usou na letra deve ser escrito numa palavra só. Ele significa “do contrário” ou “caso contrário“.

senão = do contrário / caso contrário

Exemplo:

Faça isso, senão haverá problemas.
Faça isso, do contrário haverá problemas.
Faça isso, caso contrário haverá problemas.

Já a combinação das palavras “se” e “não” tem outro significado. “Se” é uma conjunção condicional, isto é, uma conjunção que indica condição.

Se não chover, irei à sua casa.
Caso não chova, irei à sua casa.

Nesse caso, a dica é simples: substitua mentalmente o “se não” por “caso não“. Se for o sentido desejado, escreva “se” e “não” separadamente.

Símbolos e siglas

No dia-a-dia percebe-se muita confusão quanto aos símbolos, siglas e abreviaturas. As dúvidas começam nas formas de representação das unidades de tempo, comprimento e massa:

Como se escreve 4 horas?
É com “h”maiúsculo, minúsculo ou com “s” indicando plural?

Até 1960 o Brasil, aderindo à “Convenção do Metro”, adotou o Sistema Métrico Decimal. Nele as unidades básicas de medida eram o metro, o litro e o quilograma. O desenvolvimento científico e tecnológico exigiu medições cada vez mais precisas e diversificadas. Por essa razão, o Sistema Métrico Decimal acabou sendo substituído pelo Sistema Internacional de Unidades – SI, adotado também no Brasil a partir de 1962.

Vejamos algumas convenções reconhecidas internacionalmente por esse acordo.

1 metro

1 m

1 tonelada

1 t

4 metros

4 m

1 hora

1 h

1 quilômetro

1 km

4 horas

4 h

1 litro

1 l

1 minuto

1 min

4 litros

4 l

30 minutos

30 min

1quilolitro

1 kl

1 segundo

1 s

As unidades SI podem ser escritas por seus nomes ou representadas por meio de SÍMBOLOS, um sinal convencional e invariável utilizado para facilitar e universalizar a escrita e a leitura das unidades SI.

Lembre-se de que os símbolos que representam as unidades SI não são abreviaturas; por isso mesmo não são seguidos de ponto, não têm plural nem podem ser grafados como expoentes.

Exemplo: se um jogo começa às dezenove horas e trinta minutos e se quer anotar isso de acordo com as normas internacionais, deve-se escrever 19h30min, sem ponto depois do min . Essa é a forma oficial.

Na linguagem cotidiana é comum o uso de quilo em lugar de quilograma. Raramente ouvimos a forma correta:

Por favor, quero um quilo de açúcar
Por favor, quero um quilograma de açúcar

Quilo, que é representado pelo símbolo k, indica que determinada unidade de medida (metro, litro, watt) está multiplicada por mil. Sendo assim, “quilo” é um prefixo, razão pela qual o símbolo “k” não pode ser utilizado sozinho:

1000 metros = 1 quilômetro -> km

1000 litros = 1 quilolitro ->kl

1000 watt = 1 quilowatt ->kw

Portanto kg é o símbolo utilizado para representar quilograma. Atenção: use o prefixo quilo da maneira correta, como nos exemplos:

quilômetro

quilograma

quilolitro

Para mais informações sobre o Sistema Internacional de Unidades – SI, consulte o site do INMETRO http://www.inmetro.gov.br/consumidor/unidlegaismed.asp

Quanto às siglas, também ocorre muita confusão. Você saberia dizer, por exemplo, qual seria a forma correta: S.O.S ou SOS?

A forma correta é S.O.S., com pontos, sigla originária do inglês e que internacionalmente significa “save our souls“, salve nossas almas.

No Brasil adota-se a diferença entre sigla pura e sigla impura.

Sigla pura é quando todas as letras da sigla correspondem à primeira letra de cada palavra do nome que se quer abreviar. Todas as letras são escritas em maiúsculo. Um exemplo disso é I.N.P.S. Temos “I” de Instituto, “N” de Nacional,” P” de Previdência e “S” de Social. Nessa sigla cada elemento formador do nome foi abreviado tomando-se a sua primeira letra.

Uma sigla só é pura quando todas as suas letras constituintes representam a letra que inicia cada uma das palavras da forma extensa da sigla.

Dersa é um exemplo de sigla impura. As duas primeiras letras, “De”, são representantes da palavra Desenvolvimento, o “r” representa a palavra rodoviário, o “s” sociedade e o “a” anônima. Dersa não se enquadra no conceito de sigla pura. O “D” é maiúsculo porque inicia a sigla; as demais letras são minúsculas (o “e” também vem de desenvolvimento, junto com o “D” inicial).
Procure escrever as siglas e as abreviaturas segundo as normas vigentes.

“Televisão em cores” ou “televisão a cores”?

Qual a forma certa: “televisão em cores” ou “televisão a cores”?
Essa pergunta é muito freqüente.

A televisão é em preto-e-branco.
A televisão é em cores.

Isso é indiscutível. Há um ou outro autor que argumentam que “a cores” se impõe pelo uso. Se você não quiser gerar discussão, opte por televisão “em cores”, forma absolutamente correta.

O filme é em preto-e-branco.
O filme é em italiano.
O filme é em preto-e-branco.
O filme é em cores.

Lembremos que, se fosse aceita a forma “a cores”, jamais esse “a” poderia receber acento indicador de crase porque “cores” está no plural e, portanto, o “a” é tão-somente preposição, e não preposição acompanhada de artigo.

Seja como for, a expressão considerada pela quase totalidade dos gramáticos é “televisão em cores”.

Uso do “por que”

Vejamos um trecho da canção “Pedacinhos”, de Guilherme Arantes:

Pra que tornar as coisas
tão sombrias
na hora de partir?
Por que não se abrir?
Se o que vale é o sentimento
e não palavras quase
sempre traiçoeiras
e é bobeira se enganar.

Nessa canção, Arantes usa a frase “Por que não se abrir?”. Esse “por que” é separadíssimo! Toda vez que for possível substituir o “por que” por “por qual razão” ou “por que razão“, ele deve ser escrito separado:

por que não se abrir
por qual razão não se abrir

Observe este trecho da canção “Coisa Mais Linda”, de Carlos Lyra:

… Coisa mais linda
é você assim
justinho você – eu juro –
eu não sei por que você
não me quer mais…

“Eu não sei por que você não me quer mais” equivale a dizer “eu não sei por qual razão você não me quer mais”. Sempre que a troca for possível, escreva “por que” separado.

hiato e ditongo

Quantas sílabas existem na palavra “sereia”? Três. Quais são?

A primeira é “se-“; a segunda é “-rei-“; e a terceira é “-a”.

Na sílaba do meio há o que se chama de ditongo (junção de vogal e semivogal, proferidas numa só sílaba), e ditongo não se separa. Nesse caso, o “e” (de “-rei-“) é a vogal, e o “i“, a semivogal. Vogais têm pronúncia mais forte; as semivogais têm pronúncia mais fraca, indicando que não podem formar por si só núcleos silábicos, tendo sempre de acompanhar as vogais.

Quando vogal e semivogal se encontram, podemos ter ditongos crescentes e ditongos decrescentes.

Temos ditongo decrescente quando a vogal (de pronúncia mais acentuada) se apresenta antes da semivogal. É o caso de “se-rei-a”.

Temos ditongo crescente quando acontece o contrário, isto é, quando semivogal precede vogal e, portanto, o som mais fraco precede o mais forte. Temos como exemplo a palavra “água”: Á-GUA.

Em “-gua” o “a” (vogal) é mais forte que o “u” (semivogal).

Outro exemplo interessante oferece a palavra “vascaíno”: VAS-CA-Í-NO.

Esse “a” e esse “i” que vêm em seqüência sonora ficam em sílabas diferentes. A junção de vogais proferidas em sílabas diferentes chama-se hiato.

Separação de vogais= hiato.
Junção de vogal e semivogal=ditongo
.

 

Diferenças Regionais

A pronúncia do alfabeto no Brasil é freqüentemente tema de polêmica. Há uma música muito apropriada para abordar esse problema. Trata-se de “Forró do ABC”, de Moraes Moreira e Patinhas:

No forró do A nós vamos amar
E no forró do BÊ nós vamos beber
No forró do CÊ nós vamos comer
Me depois É
E no forró do FÊ
…no forró do GUÊ…

Nessa música as letras do alfabeto são enunciadas de forma diferente em relação ao sul do país. F é chamado de FÊ, por exemplo. Não está errado, pois algumas letras têm dois “nomes”.

Para reforçar, Luiz Gonzaga registrou o fato em um de seus sucessos, “ABC do Sertão”, de Zé Dantas e Luiz Gonzaga. Verifique o trecho abaixo:

Lá no meu sertão pra o caboclo lê
tem que aprender novo ABC.
O J é JI, o L é LÊ
o S é SI, mas o R tem nome de RÊ….

Nessa letra temos o alfabeto como é dito no Nordeste. Essas formas estão registradas nos dicionários.

Portanto pais e educadores, especialmente do sul do país, não devem repreender crianças que mantêm a forma de pronunciar o alfabeto da sua região de origem. Elas estão absolutamente certas.

No Sul não houve preconceito quando chamavam o antigo caminhão da Fábrica Nacional de Motores de FENEMÊ. Ninguém corrigia para FNM: EFE/ENE/EME. A maneira nordestina de pronunciar o alfabeto é sem dúvida legítima.

Pronúncia correta
“látex” ou “latéx”?

Algumas vezes até conhecemos a palavra, mas a empregamos de um determinado modo enquanto o dicionário recomenda outro uso. Vamos a mais um exemplo, o trecho final de uma propaganda feita pelo humorista Jô Soares:

Ninguém discute a liderança da tinta látex Suvinil.

No comercial, o apresentador diz “látex”, e a pronúncia está correta, embora quase todos digam “latéx”.
E como “látex” lembra pintar paredes… e paredes lembram apartamento… pensamos logo em “dúplex” e também em “tríplex”. A maioria das pessoas pronuncia “dupléx” e “tripléx”.

Quem tem razão, afinal? Oficialmente, têm razão os dicionários. Eles ensinam que “quiçá” quer dizer “talvez” e que a pronúncia correta dos termos acima é “látex”, dúplex” e “tríplex”.

“pobrema” e “renegerar”

Muitas pessoas no Brasil dizem “pobrema”. A pronúncia oficial, no entanto, deve ser sempre como se grafa a palavra: pro-ble-ma.

Há um comercial de televisão com uma atriz muito conhecida. Em certa altura de sua fala, ocorre uma troca de sílabas, nem sempre perceptível:

Se a vaca pudesse escolher um hidratante
pra proteger o couro dela, era Tom Bom.
Ela ia falar assim, ó: ‘Tooom Booom’.
Tom Bom é um creme que penetra e renegera cada fibra,
deixando o couro vivo, macio, doidinho pra brilhar…

A atriz Denise Fraga, que fez o comercial, relatou que foi preciso convencer o pessoal da agência de publicidade para a qual fez o comercial a aceitar renegera no lugar de regenera. O resultado ficou delicado e interessante.

A ciência que se ocupa desses desvios de pronúncia é a fonoaudiologia. Em depoimento ao programa, a fonoaudióloga Sandra Pela fala a respeito do assunto:

“Para a produção efetiva dos sons da fala, algumas estruturas são necessárias. O ar vem dos pulmões, passa pela laringe e produz som nas pregas vocais. Esse som é então modificado no trato vocal ou na caixa de ressonância. O trato vocal é que dá a característica específica de cada som.

Por exemplo: se o ar sai mais pelo nariz do que pela boca, temos os sons nasais, como na pronúncia das letras ‘m’ e ‘n’. Se o som é produzido durante o fechamento dos lábios, temos os sons das letras ‘p’ e ‘b’.

Quando esse mecanismo da fala está alterado, temos um fenômeno que é conhecido, atualmente, como dislalia ou distúrbio articulatório. Antigamente era chamado de rotacismo.

No caso das crianças, o problema pode ser decorrência de um atraso no desenvolvimento e de alterações na habilidade motora ou no comando do sistema nervoso central. No caso dos adultos, podemos pensar em trocas articulatórias dos fonemas – como falar ‘Cráudia’ em lugar de ‘Cláudia’, ou de sílabas, como no caso do comercial mencionado. A pessoa faz essa alteração muitas vezes em decorrência do seu meio cultura”.

Como vimos, o problema tem explicação científica e há solução para ele. A pessoa pode fazer um tratamento para aprender a empostar a voz, a pronunciar melhor as palavras. O importante é que ninguém seja discriminado por isso.

Sons do “x”

“Chato” é com “x” ou “ch”? Claro, é com “ch”, essa todo mundo sabe. E “lixo”? Com “x”, sem dúvida, todo mundo sabe disso também. Mas, nessas duas palavras, o “ch” e o “x” têm som de quê? De “x”, oras. Afinal, o nome da letra é “xis”. Assim, em “chato”, as letras “c” e “h” é que, juntas, têm som de “x”.
Mas será que a letra “x” tem sempre som de “x”? Nem sempre. Vejamos alguns casos, como o de “máximo”. Nessa palavra, o “x” tem som de “ss” (dois esses), como se tivesse sido escrita com “ss”: “mássimo“.

Agora observe este trecho da canção “Casa”, gravada por Lulu Santos:

… Depois era um vício
uma intoxicação
me corroendo as veias
me arrasando pelo chão.
Mas sempre tinha a cama pronta
e rango no fogão…

O “x” de “intoxicação” deve ser pronunciado como se fosse um “c” e um “s” juntos. Ou, como no alfabeto fonético, um /k/ e um /s/ juntos, formando o encontro consonantal /ks/. A palavra “intoxicação” deve, portanto, ser pronunciada como “intoksicação”.

Vamos a mais um exemplo, tomado à canção “Pense dance”, gravada pelo Barão Vermelho:

Penso como vai minha vida
alimento todos os desejos
exorcizo as minhas fantasias
todo mundo tem um pouco de medo da vida…

Você notou o uso do verbo “exorcizar”. É até uma palavra difícil de pronunciar. O “x” nessa palavra tem o mesmo som que nas palavras “exame” e “êxodo”, por exemplo. Nesse caso, o “x” aparece com som de “z“.

E há ainda mais um caso de som possível que a letra “x” pode indicar: em palavras como “excesso”, em que o “x” é seguido de “c“, o som é um só, como se fosse “ss” (dois esses). Ou seja, foneticamente, “x” e “c” juntos produzem um som só, são um “dígrafo”.

Em suma, vimos cinco tipos de som que o “x” pode apontar:

lixo – som de “x
ximo – som de “ss
intoxicação – som de “ks
exorcizar – som de “z
excesso – som de “ss

Gíria
“panaca”, “basbaque”

Observe o trecho da canção “É”, de Luiz Gonzaga Jr.::

A gente quer calor no coração
a gente quer suar, mas de prazer
a gente quer é ter muita saúde
a gente quer viver a liberdade
a gente quer viver felicidade.
É, a gente não tem cara de panaca
a gente não tem jeito de babaca…

Nessa letra de Gonzaguinha, vimos o uso das gírias “panaca” e “babaca“. Essa última, por sinal, tem a sua variante culta, “basbaque“, a pessoa que pasma diante de tudo, o tolo. Do termo “basbaque” surgiu a variante “babaca”, uma gíria. “Panaca” é a mesma coisa, uma gíria com significado semelhante a “babaca”.

Vamos a um trecho da canção “Vida Louca Vida”, gravada por Lobão:

…Se ninguém olha quando você passa
você logo acha: _”tô carente
sou manchete popular”.
Já me cansei de toda essa tolice
babaquice
essa eterna falta do que falar.

Que posição devemos ter em relação à gíria? Preconceito? Não. A gíria é um recurso lingüístico saudável. A gíria vai e vem: ela nasce, vive, desaparece e pode até ressurgir. No texto formal, porém, procure evitá-la.

Gíria
“Ficar”

Os tempos dão às palavras significados que mudam.

Por exemplo: “ficar”. Qualquer dicionário de língua portuguesa traz o significado da palavra, que todo mundo sabe qual é. Nos últimos tempos, porém, os jovens deram a essa palavra um novo sentido.
Vamos ver o que ocorre com “ficar” na letra da canção “A cruz e a espada”, gravada por Paulo Ricardo:

… E agora eu ando correndo tanto
procurando aquele novo lugar
e aquela festa, o que me resta
encontrar alguém legal pra ficar
e agora eu vejo, aquele beijo
era mesmo o fim
era o começo e o meu desejo
se perdeu de mim.

O que seria “alguém legal pra ficar”? A expressão “ficar”, com a acepção que tem na canção, quer dizer algo como “ter um leve envolvimento com alguém, sem compromisso”. Um rapaz vai a uma festa, conhece uma garota e fica o tempo todo com ela, o que pode incluir beijos e abraços.

Será que esse significado permanece por muito tempo? Quem sabe o “Nossa Língua Portuguesa” possa, daqui a dez anos, voltar a tratar da palavra “ficar” e ver se esse novo sentido já não ficou velho, se ficou mesmo…

Gíria
“detonada”

Será que você já fez uso de “adequação vocabular”? “Vocabular” diz respeito a vocábulo, palavra. “Adequação vocabular” é adequar as palavras à situação de fala. As gírias, por exemplo, podem ser perfeitamente ajustadas a certos contextos. Repare na palavra “detonada” utilizada na letra da música abaixo, “Nada a declarar”, do grupo Ultraje a Rigor:

Mas eu ‘tô vendo que a galera anda entediada
não ‘tá fazendo nada e eu não ‘tô dando risada
Aí, qualé? Vamos lá, moçada!
Vamos agitar, vamos dar uma detonada!

“Detonar”, nos dicionários, aparece como sinônimo de “fazer explodir”, “provocar uma explosão”. Na gíria, essa palavra passou a ser usada como sinônimo de “pôr tudo a perder”, “acabar com tudo” e até de “ser o máximo”, “ser o melhor dos melhores”. O jogador que “detonou”, por exemplo, foi o melhor do jogo.

No território da gíria, da linguagem popular, usar o verbo “detonar” com esse sentido é perfeitamente possível. Em linguagem formal, isso não seria de maneira alguma adequado. “Detonar” se limitaria, nesse caso, a indicar a idéia de explosão.

Gíria
“não dá para”

Na canção abaixo, aparece uma expressão muito comum na fala, no bate-papo, que, no entanto, não deve freqüentar o chamado padrão escrito, o padrão formal da língua. O trecho faz parte da canção “Pra Dizer Adeus”, dos Titãs:

não dá pra imaginar quando
é cedo ou tarde demais
Pra dizer adeus, pra dizer jamais

Na linguagem popular, a expressão “não dá pra…” é aceita e muito comum. No texto formal, no entanto, o mais apropriado seria utilizar “não é possível” ou algo equivalente. A expressão “não dá pra…” é bastante recorrente. Outro exemplo do seu uso é a canção “Rádio Bla”, com Lobão:

não dá para controlar, não dá
não dá pra planejar…

Utilizar essa expressão não é errado. Ela é adequada a um determinado nível de linguagem, como a fala. Mas o padrão escrito não a recomenda.

 

Uso de “gente” e “nós”

Afinal de contas, podemos ou não utilizar a expressão “a gente” no lugar de “nós” ? Dizer que não há problema nenhum em usarmos a expressão no dia-a-dia, na linguagem coloquial, contraria muitas pessoas, para quem esse uso da palavra “gente” deveria ser abolido de vez.

Evidentemente não é possível eliminar a expressão da língua do Brasil, mesmo porque seu uso já está mais do que consagrado. Mas quando ela é de fato mais lícita? No bate-papo, na linguagem informal. No texto formal, ela está fora de questão. Mas, uma vez usada, como deve ser a concordância? É “a gente quer” ou a “gente queremos”? A maneira correta é:

A gente quer.
Nós queremos.

O uso da expressão “a gente” em substituição a “nós” é tão forte que algumas vezes dá origem a confusões. Veja o trecho da canção “Música de rua”, gravada por Daniela Mercury:

… E a gente dança
A gente dança a nossa dança
A gente dança
A nossa dança a gente dança
Azul que é a cor de um país
que cantando ele diz
que é feliz e chora

“A gente dança a nossa dança”. É tão forte a idéia de “gente” no lugar de “nós” que nem faria muito sentido outro pronome possessivo para “gente”, não é? O “nossa” é pronome possessivo da 1ª pessoa do plural e, portanto, deveria ser usado com o pronome “nós”:

Nós dançamos a nossa dança”.

Na linguagem coloquial, no entanto, diz-se sem problema “a gente dança a nossa dança”, “a gente não fez nosso dever”, “a gente não sabia de nosso potencial” etc.

No bate-papo, no dia-a-dia, na canção popular, não seria inadequado o emprego da palavra “gente” — que nos perdoem os puristas, os radicais, os conservadores. Só não é possível aceitar construções como “a gente queremos“. Isso já seria um pouco excessivo.

Palavras inglesas

Observe a letra desta canção:

Eu não pedi pra nascer
eu não nasci pra perder
nem vou sobrar de vítima
das circunstâncias
Eu tô plugado na vida
eu tô curando a ferida
às vezes eu me sinto
Uma mola encolhida…

Essa canção, “Toda forma de amor”, foi gravada por Lulu Santos e por outros artistas. Nessa letra vemos o uso da palavra “plugado”, particípio do verbo “plugar”. A palavra, que até há pouco tempo não existia em português, começa a surgir nos novos dicionários. Vem do inglês “plug in“, verbo que quer dizer “conectar”, “ligar na tomada”. Nos últimos anos, muitos artistas brasileiros, como Gilberto Gil, Titãs e Moraes Moreira, têm gravado discos “unplugged”. Esse prefixo “un” em inglês significa “não”. Assim, o termo “unplugged”, algo como “desconectado”, “desligado da tomada”, é usado para expressar que a gravação foi feita somente com instrumentos acústicos.

Para falar de outro caso desse tipo, vejamos um trecho da canção “Coisa bonita”, gravada por Roberto Carlos:

Amo você assim e não sei
por que tanto sacrifício
Ginástica, dieta
não sei pra que tanto exercício
Olha, eu não me incomodo
Um quilinho a mais
não é antiestético
pode até me beijar, pode me
lamber que eu sou dietético

Em restaurantes, costumamos pedir mais por um “guaraná diet” do que por um “guaraná dietético”. O termo “dietético” é um adjetivo derivado de “dieta”, que, por sua vez, é de origem grega e significa “gênero de vida”. Portanto a palavra “dietético” não tem nada a ver com esse uso que temos feito da palavra “diet”, que nada mais é do que “dieta” em inglês.

Palavras Italianas

Todo mundo sabe que, além do tradicional arroz e feijão, o brasileiro adora uma massa, não é? O programa “Nossa Língua Portuguesa” foi às ruas para saber como as pessoas grafam algumas palavras muito comuns na culinária típica da Itália. Vamos aos resultados:

Lasanha: lazanha / lasanha
Nhoque: enhoque / nhioque
Espaguete: spaguetti / espaguete / spaghet
Muçarela: mussarela / musarela / muzzarella

Falando em comida, vimos nas respostas uma verdadeira salada! Bem, os dicionários registram formas aportuguesadas dessas palavras. “Lasanha”, por exemplo, em italiano se escreve com “s” e “gn”, ou seja, “lasagna”, e em português com “s” e “nh”, “lasanha”. Depois vimos “nhoque”. Em italiano, é “gnocchi”, mas, em português, escreve-se com “nh” no começo e “que” no final (“nhoque”). Vimos também “espaguete”, que em italiano se escreve “spaghetti” e vem de “spago”, que quer dizer barbante.

Mas o grande problema é mesmo com a palavra “muçarela”, grafada dessa maneira pelo vocabulário ortográfico oficial da Academia Brasileira de Letras. Os dicionaristas não se entendem. O dicionário Aurélio traz “mozarela”. O novo Michaelis também grafa “mozarela”, mas tolera a forma “muçarela”.

Português

lasanha

nhoque

espaguete

mozarela/muçarela

Italiano

lasagna

gnocchi

spaghetti

mozzarella

 

Então é isso. A coisa é complicada. Determinadas palavras estrangeiras recebem forma aportuguesada, outras não. Na dúvida, vá ao dicionário. Sempre que a palavra tenha uma forma em português, dê preferência a ela.

“Eu sarto de banda”

O programa Nossa Língua Portuguesa já abordou algumas vezes a questão do preconceito lingüístico. Muitas pessoas ainda manifestam preconceito contra variantes lingüísticas típicas de determinadas comunidades. Isso é de lamentar, pois, na verdade, o modo como comunidades do interior de São Paulo, por exemplo, pronunciam certas palavras e fonemas enriquece o patrimônio cultural da língua portuguesa.

Veja este trecho da canção “De repente Califórnia”, de Lulu Santos e Nélson Motta:

… O vento beija meus cabelos
as ondas lambem minhas pernas
o sol abraça o meu corpo
meu coração canta feliz.
Eu dou a volta, pulo o muro
mergulho no escuro
sarto de banda.
Na Califórnia é diferente, irmão
e muito mais do que um sonho…

Você notou, a certa altura, a expressão “sarto de banda“. Não há nenhum problema nisso! Afinal, trata-se de uma letra de música, e não de uma dissertação formal. É muito importante que nós tenhamos noção da variante lingüística empregada em determinado ambiente. Não seria admissível escrever “sarto de banda” ou qualquer outra expressão similar num texto formal. Mas numa conversa informal, numa canção, não há o menor problema.

“trocar de mal” e “ficar de mal”

Existem determinadas expressões brasileiras que mudam de Estado para Estado. Um exemplo é a expressão “ficar de mal”, que em alguns lugares recebe a variação que vemos no trecho abaixo da música “Espelho”, de João Nogueira:

troquei de mal com Deus por me levar meu pai…

Em São Paulo ninguém diz “troquei de mal”, que é próprio do Rio de Janeiro e de outras regiões. Em São Paulo a expressão equivalente seria “fiquei de mal”.

Nessa mesma letra João Nogueira escreve:

… um dia eu me tornei o bambambã da esquina….

“Bambambã” é uma expressão conhecida em todo o território nacional: “o bambambã do futebol” é o número 1 do time.

Observe outros casos em que uma expressão pode apresentar variação quanto à forma:

Em São Paulo, as pessoas descem do ônibus.
No Rio de Janeiro, elas saltam do ônibus.
A média na capital paulista é café com leite.
Em Santos, média é um pãozinho.
Em Itu (SP), pãozinho é filão.
O filão em S. Paulo, capital, é um pão grande.

A língua oficial não pode ser usada o tempo todo e em qualquer situação; por isso as variações existem e são enriquecedoras.

É o caso da palavra “cacete”. A palavra “cacete” em língua culta significa “enfadonho”. Assim, “um filme cacete” seria um filme enfadonho.

Nas padarias de Salvador, não se espante se, ao pedir 5 pãezinhos, a balconista avisar ao padeiro: “Salta 5 cacetinhos”. Seria estranho, em São Paulo, alguém pedir em uma padaria “cinco cacetinhos”.

Há ainda a expressão “do cacete”, com função qualificadora e mesmo superlativa. Um livro “do cacete” é um livro “excelente”. Uma campanha publicitária sobre o Caribe aproveitou essa gíria para montar um trocadilho: “Aruba é do Caribe”. É claro que Aruba é do Caribe, mas a intenção é outra. Esse “Caribe” da frase está no lugar de “cacete”, com quem compartilha o “ca” inicial.

O apóstrofo

Um verdadeiro motivo de confusão é o apóstrofo, um sinal em forma de vírgula usado em certos casos de união de palavras. Um exemplo do uso do apóstrofo está na canção de Chico Buarque “Gota D’água”:

Deixa em paz meu coracão
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água…

O compositor preferiu escrever “gota d’água” a escrever “gota de água” . O apóstrofo representa a junção de duas palavras: “de” e “água”.

Há casos de exagero no uso do apóstrofo. É o que ocorre em relação a “pra”, redução da palavra “para”. Nesse caso, não há junção de palavra com palavra. Logo não há por que colocar o apóstrofo.

O apóstrofo pode ser usado ainda de forma criativa e brincalhona. É o que vemos, por exemplo, no nome de um bar situado na rua Eça de Queirós, no bairro do Paraíso, em São Paulo. O nome do estabelecimento é ENTRE N’EÇA. Os proprietários criaram essa marca com base no nome da rua e na expressão popular “entre nessa”. Ocorreria, nesse caso, um fusionamento de palavras, “no Eça”, conforme sugere o trocadilho con “nessa”.

“Embaixo” ou “em baixo”?

Nosso sistema ortográfico possui algumas incoerências. Uma delas é o caso de”embaixo”. Juntamos ou separamos essa palavra? Vejamos a letra da música “Eu vou estar”, do grupo Capital Inicial.

(…)
Nos seus livros
nos seus discos
vou entrar na sua roupa
e onde você menos esperar
embaixo da cama
nos carros passando
no verde da grama
na chuva chegando
eu vou voltar…

“…embaixo da cama”, diz a letra. E se fosse “em cima da cama”? Nesse caso, deveríamos usar duas palavras:”em” e “cima”. Mas “embaixo” constitui uma única palavra.
Havia uma propaganda de rádio em que um menino dizia: “Pai, porque ‘separado’ se escreve tudo junto e ‘tudo junto’ se escreve separado?”. De fato, parece uma incongruência.

Seja como for, escreve-se “embaixo” junto e “em cima” separadamente.
Se a palavra “baixo”for adjetivo, então ela será autônoma, como neste exemplo:

Ele sempre se expressa em baixo calão, em baixa linguagem.

De resto, o contrário de “em cima” é”embaixo“.

“Viajem” ou “viagem”? “Chuchu” ou “xuxu”?

Muitos têm dificuldade para acertar na grafia das palavras. Nesses casos, é fundamental consultar o dicionário com freqüência.

A palavra chuchu”, por exemplo, nem sempre é grafada corretamente. Escreve-se “chuchu“, como se pode perceber, com “ch” e sem acento.

Outra “curiosidade” que a língua nos oferece diz respeito à palavra “viagem“. Entrevistamos o povo na rua a respeito desse termos, e as respostas se dividiram.. Algumas pessoas garantem que é com”g”, outras, com”j”. Qual a forma correta?

Ambas as formas são possíveis: “viajar” é com”j”, mas “viagem” pode ser escrita tanto com “g” como com “j”. “Viagem” com “g” é o substantivo. “Viajem” com “j” é a forma verbal do verbo “viajar”. Veja:

Que eu viaje
Que tu viajes
Que ele viaje
Que nós viajemos
Que vós viajeis
Que eles viajem

Ex.: Eu quero que vocês viajem agora e que façam uma ótima viagem. Interessante, não ?

Dúvidas também aparecem quanto à grafia das palavras “através”, “atrás”, “atrasado”. Elas são escritas com “s” ou com “z”?

Atrás“, “atrasado”, “atrasar” são palavras de uma mesma família, têm o mesmo radical e todas são escritas com “s”. “Através” também é escrita com “s”.

Problemas relacionados à grafia existem em outras línguas, não sendo exclusivos da língua portuguesa.

Em todos os casos, não há outra saída. Leia com constância para fixar a grafia das palavras e não se esqueça: quando a dúvida permanecer, vá ao dicionário, pois a certeza está lá.

“g” ou “j”?

(música “Faixa amarela”, de Zeca Pagodinho)

Eu quero presentear
a minha linda donzela
não é prata nem é ouro
é uma coisa bem singela
vou comprar uma faixa amarela
bordada com o nome dela
e vou mandar pendurar
na entrada da favela.
E para o nosso papá
vai ter bife de panela
salada de petit-pois
jiló, chuchu e berinjela
sem falar da tal faixa amarela
bordada com o nome dela
que eu vou mandar pendurar
na entrada da favela.

Há nessa música muitas palavras que rimam: “singela”, “donzela”, “amarela”, “berinjela”, “dela”, “favela”, “panela”.

“Singela” vem do latim e é da mesma família de “singular”. “Singelo” quer dizer “simples”, “único”. Perceba que tanto “singelo” quanto “singela” são escritas com a letra “g”.

Já “berinjela” é palavra árabe e escreve-se com “j” no português do Brasil. Nos dicionários de Portugal, essa palavra aparece com “g”.

Palavras terminadas em “-ez”

Como é que se escreve “chinês”? Com “s” no fim, é claro, e acento circunflexo no “e”.
E “holandês”? Do mesmo modo: com “s” no fim e circunflexo no “e”.

E quem é tímido? Quem é tímido possui uma propriedade que às vezes atrapalha um pouco… Uma propriedade, uma qualidade chamada…

Bem, vamos ver trecho de uma canção com o grupo Biquíni Cavadão:

… Se eu tento ser direto, o medo me ataca.
Sem poder nada fazer,
sei que tento me vencer e acabar com a mudez.
Quando chego perto, tudo esqueço e não tenho vez.
Me consolo (foi errado o momento talvez…),
mas na verdade nada esconde essa minha timidez

Essa música chama-se “Timidez”, exatamente o que nos interessa. Quem é tímido é dotado de timidez. “Timidez” não se escreve com “s”, mas com “z“. Trata-se de um substantivo abstrato, que, entre outras coisas, designa qualidade, como “honestidade” e “rapidez”. O adjetivo “tímido” dá origem a “timidez”, substantivo abstrato. Sempre que ocorre esse processo, com o acréscimo de “-ez” e “-eza“, usamos a letra “z“.

Substantivos abstratos derivados de adjetivos
terminam em -ez/-eza.

É o caso também de “mudez”, outra palavra que está na letra da canção. “Mudez”, substantivo abstrato, vem de “mudo”, adjetivo. Por isso “mudez”, como “timidez”, escreve-se sempre com “z”, de “zebra”!

E o substantivo abstrato também serve para dar nome de estado ou situação. Vamos entender melhor com a canção “Somos quem Podemos Ser”, gravada pelos Engenheiros do Hawaii:

… A vida imita o vídeo,
garotos inventam um novo inglês,
vivendo num país sedento,
um momento de embriaguez.
Somos quem podemos ser,
sonhos que podemos ter.

Nessa canção existe a palavra embriaguez. É o nome de um estado, de uma situação, como “gravidez“.

E aquela raça de cachorro… será “pequinês” ou “pequinez”?
Bem, “pequenez” é a qualidade de algo pequeno. “Pequeno” é adjetivo, “pequenez” é substantivo abstrato. Portanto, com “z“.
A raça do cachorro chama-se “pequinês” porque é originária da cidade de Pequim, na China. E, assim como “holandês” e chinês”, grafa-se com “s” no fim e circunflexo no “e“.

Palavras terminadas em “-gem

Veja as palavras terminadas em –gem que aparecem no texto abaixo, extraído da canção “Sereia”, de Lulu Santos.

Clara como a luz do Sol
lareira luminosa nessa escuridão
bela como a luz da Lua
estrela do Oriente nesses mares do Sul
lareira azul no céu
na paisagem
será magia, miragem, milagre
será mistério

Observe que”paisagem” rima com “miragem”. Esses substantivos que terminam em “-gem” são grafados com “g”: “paisagem”, “miragem”, “garagem” (existe também a forma “garage”), “personagem”, “ultrapassagem”, “passagem”, e por aí vai.

Mas, como sabemos, existem as exceções: “lambujem” e “pajem”. Afora essas duas, os demais substantivos terminados em “-gem” escrevem-se com “g”. “Viagem”, por exemplo, é substantivo e é grafado com “g”. Já “viajem”, forma do verbo “viajar”, é com “j”.

      Plural das palavras terminadas em “x”

Nem todos os plurais de palavras terminadas em “x” seguem o mesmo modelo. Vejamos o caso de “tórax”.
Qual é o plural de tórax? O plural de tórax é tórax: o tórax, os tórax.
(Lembremos que o adjetivo é torácico, com “c“, e não com “x”.)

No entanto há outras palavras terminadas em “x” que fazem plural diferente. Extraímos um exemplo da música “Cálix Bento” (letra adaptada por Tavinho Moura da Folia de Reis do Norte de Minas Gerais), cantada por Pena Branca e Xavantinho:

… onde mora o cálix bento
… onde mora o cálix bento…

Deve-se atentar para a pronúncia correta da palavra”cálix“. O “x” não é pronunciado como na palavra “tórax” e, sim, com som de “s“. “Cálix” tem uma forma paralela, “cálice”.

As palavras que terminam em “x” e têm forma paralela fazem o plural pela forma paralela.
Ex:

cálix, cálice, cálices
apêndix (neste caso, pronuncia-se o “x” ), apêndice, apêndices
índex, índice, índices
látex, látice, látices

Normalmente, diz-se “latéx”, com deslocamento do acento. Errado. O certo é “látex“.

O trema

Muitos pensam que o trema não existe mais. De fato, está em andamento um acordo ortográfico para unificar a grafia da língua portuguesa nos sete países em que ela é falada oficialmente. Se esse acordo entrar em vigor um dia, o trema desaparecerá. Enquanto isso não acontece, o trema existe e deve ser usado.

O trema faz parte do sistema ortográfico vigente e é empregado quando a letra “u” é pronunciada atonamente nos grupos “qüe“, “qüi“, “güe” e “güi“. Um exemplo claro e muito conhecido é a palavra “cinqüenta”. Confira a grafia nas cédulas de cinqüenta reais.

Já no título da canção “Eu não agüento”, dos Titãs, aparece um verbo que nem sempre é corretamente grafado. Vejamos um trecho da letra:

Eu vou-me embora para a ilha
fazer a cabeça sob o sol que irradia
queimando em ritual.
É na batida do reggae
e com o cabelo trançado
eu tô livre na vida
e o que há de errado
com a noite que brilha?
Eu não agüento, eu não agüento
Eu não agüento, eu não agüento
é de noite, é de dia
mão na cabeça e documento.

Se você quer escrever “agüento” seguindo a norma culta da língua, use o trema. Observe que a tonicidade não está na vogal “u”, mas na vogal “e”. Assim, por ser átono e ao mesmo tempo sonoro, o “u” deve levar trema nesse caso.

Outra canção, “Saudade de Casa”, de Ivan Lins e Vítor Martins, traz uma palavra com relação à qual muitos têm dúvida:

Quero tudo como antes:
nossa casa aconchegante
eu bem dentro dos seus olhos
Seu morador.
Eu tranqüilo ao seu lado
Onde quer que esteja, lá está
O mais belo e bem cuidado amor

A letra dessa canção contém a palavra “tranqüilo“. De acordo com as normas ortográficas vigentes, a letra “u” deve, sim, receber o sinal trema.

Há uma palavra muito interessante que, normalmente, as pessoas pronunciam de forma errada: “qüiproquó“. “Qüiproquó” é uma expressão latina que significa “confusão”. O trema deve aparecer no primeiro “u”. O segundo “u” não está em nenhum dos grupos que exigem esse sinal.

Mesmo que parte da imprensa não o use e muita gente já tenha se esquecido dele, continue usando o sinalzinho, sempre quando a letra “u” for sonora e precedida de “g” ou “q“.

“Quis” ou “quiz”?

A terminação das palavras “feliz” e “quis”, do verbo querer”, tem som de “is”. Mas a grafia não é a mesma numa e noutra palavra. Vejamos um exemplo tomado à canção “Bem que se quis”, de Marisa Monte.

Bem que se quis
depois de tudo ainda ser feliz
mas já não há caminhos pra voltar.
E o que é que a vida fez da nossa vida?
O que é que a gente não faz por amor?

Essa música é italiana, de um napolitano chamado Pino Daniele, e foi vertida para o português por Nelson Motta. Diz a letra:

Bem que se quis depois de tudo ainda ser feliz…

“Quis” e “feliz” rimam entre si, mas “quis” se escreve com “s”, e “feliz”, com “z”. “Quis” é forma do verbo “querer”. Quando você conjugar o verbo “querer”, simplesmente aposente a letra “z”.
O verbo querer apresenta todas as formas grafadas com a letra “s”.

quis
quisemos
quiseram
quisesse
quiséssemos
quisessem
quiser
quisermos
quiserem

Como se pode notar, em nenhuma das formas acima, pertencentes a modos e tempos verbais distintos, aparece a letra “z”.

“X” ou “ch”?

Um item particularmente delicado do capítulo de ortografia é o que diz respeito ao uso de “x” e “ch”. Tomemos alguns exemplos extraídos da letra de música “Bolo de ameixa”, do grupo Mundo Livre S.A.:

Deixa esse bolo de ameixa
e vem mexer
deixa esse bolo de ameixa
e vem mexer…

Repare em “Deixa esse bolo de ameixa”. Tanto em “deixa” quanto em “ameixa” temos ditongo: dei-xa e a-mei-xa. A grafia é essa mesma, com “x”. A dica é muito simples: depois de ditongo, usa-se “x”.
Veja outros exemplos:

frouxo
baixo
caixa

Entretanto há uma exceção. Trata-se de “recauchutar” e toda a sua família: “recauchutagem”, “recauchutador” etc. Nessas palavras temos o ditongo “au” e, em seguida “ch”, em vez de “x”. Isso se deve à origem da palavra “recauchutar”, que, conforme o dicionário Houaiss, vem do termo francês “recaoutchouter” < “caoutchouter”, que significa “emborrachar, impermeabilizar” e é, por sua vez, formado a partir de “caoutchou” (palavra de origem peruana), “borracha”.

De qualquer maneira, tirando o caso da família de “recauchutar”, você pode tomar isto como regra: depois de ditongo, use sempre “x”.

“Benvindo” ou “bem-vindo”?

“Bem-vindo a São Paulo”, “Seja bem-vindo a Guaratinguetá”. Quando se chega a uma cidade, é comum vermos placas desse tipo. Mas há também aquelas que, em vez de “bem-vindo”, trazem “benvindo”. Perguntamo-nos então se uma forma vale pela outra, se é indiferente usar uma e outra. Vejamos uma letra do grupo Engenheiros do Havaí, chamada “Simples de coração”:

(…)
antes que eu saia
pela tangente
no giro do carrossel
falta uma volta (ponteiros parados):
tudo dança em torno de ti
volta voando… fim da viagem:
bem-vinda à vida real.

A letra dá uma dica: “…fim da viagem: bem-vinda à vida real…”. “Bem-vinda” é o feminino de “bem-vindo” e grafa-se com hífen também.

Os dicionários brasileiros dão “bem-vindo” com hífen quando o sentido é o de saudação. No entanto indicam que existe também a forma “Benvindo” (com “n” e sem hífen) como nome de pessoa: “Benvindo” para homens e “Benvinda”para mulheres.

A grafia do adjetivo com que se faz a saudação pede hífen. Há um detalhe, porém. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, registra duas grafias para a saudação: “bem-vindo” e “benvindo”. Como o vocabulário tem força de lei, concluímos que essa grafia também é possível.

“Dia-a-dia” ou “dia a dia”?

A expressão “dia a dia” é com hífen?

Se você consultar um dicionário, terá como resposta “dia-a-dia”. Exatamente assim, com hífen. Mas… não se dê por satisfeito, não. O uso do hífen depende do caso. Veja o texto deste anúncio, de um shopping center de São Paulo, veiculado em outdoors:

O dia-a-dia das mães é aqui.

No anúncio, “dia-a-dia” é sinônimo de “cotidiano“. A expressão está substantivada e grafa-se com hífen.

Dia-a-dia = cotidiano

“Dia a dia” pode ser escrita sem hífen também, como na canção “Pacato cidadão”, gravada pelo Skank:

Pacato cidadão, te chamei a atenção
não foi à toa, não
C’est fini la utopia mas a guerra todo dia
dia a dia, não
Tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo a luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora a luz do sol

Nesse caso, “dia a dia” não tem o sentido de “cotidiano”. Quer dizer antes “diariamente“, “todo dia“. Trata-se de um advérbio. Nesse caso, o hífen está dispensado.

dia a dia = dia após dia, diariamente

Veja outros exemplos de “dia a dia” sem hífen:

Ela melhora dia a dia.
Ela melhora dia após dia.
Ela melhora diariamente.

A expressão “dia-a-dia”, portanto, só é grafada com hífen quando é substantivada, quando aparece na frase como substantivo.

Por essas e por outras, preste sempre atenção quando for consultar o dicionário. Deixe a pressa de lado e leia o verbete até o fim.

“Salário-mínimo” / “à-toa”

Você está com uma pressa danada e quer saber se “salário mínimo” é grafado com hífen ou sem ele. Numa consulta ao dicionário, você rapidamente vê “salário-mínimo” com hífen e se dá por satisfeito: vai usar a expressão com o hífen.

Cuidado! Numa consulta mais atenta, você verá que “salário-mínimo”, com hífen, tem um significado diferente do que você está imaginando. A expressão não significa o valor mínimo que o trabalhador brasileiro deve receber como salário. Nesse caso, devemos grafar sem o hífen: “salário mínimo.

“Salário-mínimo” é uma expressão popular que possui outro sentido:

Esse time é salário-mínimo

Isto é, trata-se de um time muito fraco, que não vale nada.

Quando queremos nos referir à remuneração mínima dos assalariados, utilizamos as palavras “salário” e “mínimo” no sentido básico delas, o que não acontece na expressão com hífen, que é usada para qualificar alguma coisa.

E “à toa”, é com hífen ou sem hífen? “À toa” ou “à-toa”? Vejamos o trecho da letra de “Tão seu”, canção gravada pelo grupo mineiro Skank:

…Não diga que não vem me ver:
de noite eu quero descansar,
ir ao cinema com você,
um filme à-toa no Pathé…
Não diga que você não volta:
eu não vou conseguir dormir,
à noite eu quero descansar,
sair à toa por aí.

A expressão aparece grafada das duas formas, com hífen e sem hífen, e com sentidos completamente diferentes.

filme à-toa = filme qualquer

Neste caso, “à-toa“, que se escreve com hífen e acento indicador de crase no “a”, funciona como uma expressão de valor adjetivo. No segundo caso, sem hífen, a expressão adquire outro significado:

sair à toa = sair sem rumo, sair a esmo

De todo modo, quando for ao dicionário tirar a dúvida sobre o uso do hífen em determinadas palavras, esteja atento. Muitos termos aparecem sob as duas formas e com significados distintos para uma e outra.

“Subdelegado” ou “sub-delegado”?

A palavra “subdelegado” tem ou não hífen?

O prefixo “sub-” só exige hífen quando a palavra seguinte, ou seja, seu radical, começar com “b” ou “r”. Exemplos:

sub-base, sub-bibliotecário
sub-raça, sub-reptício, sub-reitor…

Assim, “subdelegado” não tem hífen porque a palavra “delegado” não começa com nenhuma das duas letras: “b” ou “r”.

Para a maioria esmagadora dos prefixos, vale o hífen se o radical da palavra seguinte começar com “h, r, s“e vogal.

Prefixos:

auto

extra

intra

semi

contra

infra

pseudo

ultra

Exemplos:

auto-serviço, contra-regra,
pseudo-autor, semi-árido,
extra-oficialmente, infra-estrutura,
ultra-humano…

Segundo essa regra,não é possível escrever com hífen as palavras “autoconfiança”, “contracapa”, “extraconjugal”, “infravermelho” etc. Nenhuma delas tem seus radicais iniciados por “h“, “r“, “s” ou vogal.

Existem alguns prefixos que se enquadram numa terceira regra. O “Nossa Língua Portuguesa” perguntou ao povo nas ruas: “Como você escreve antiinflamatório e antiinflacionário?”. A maior parte das pessoas infelizmente errou, embora certamente use essas palavras no dia-a-dia.

Os prefixos “anti-“, “ante-” e “sobre-” exigem hífen quando o radical começa com “h“,”r” e “s“. Não é o caso das palavras sugeridas ao público, pois antiinflamatório e antiinflacionário começam com vogal.

Sílaba tônica
Oxítonas, paroxítonas, proparoxítonas

Os acentos existem em nossa língua, têm sua lógica e devem ser usados. Vamos lembrar rapidamente o que é palavra oxítona, paroxítona e proparoxítona.

Palavra oxítona é aquela cuja sílaba tônica é a última. Exemplo: “café“.

Paroxítona é aquela palavra cuja sílaba tônica é a penúltima. “Lata“, por exemplo.

A lógica das regras de acentuação é a exclusão. Acentua-se o que é mais raro.

Todas as paroxítonas terminadas em “r” são acentuadas e, portanto, nenhuma oxítona terminada em “r” deve ser acentuada. Nesse caso, basta lembrar que todos os verbos são terminados em “r” (falar, beber, bater, ouvir, chorar, comer…). Todos são palavras oxítonas.

Quanto às proparoxítonas, veja o exemplo que Chico Buarque nos traz em “Construção”.

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Observe que os versos terminam sempre em palavras proparoxítonas, ou seja, naquelas cuja sílaba tônica é a antepenúltima.

É o caso de “última”, “único”, “tímido”, “máquina”, “sólidas”, “mágico”, e “lágrima”. As proparoxítonas são as palavras mais raras da nossa língua; por isso todas são acentuadas.

Chico Buarque teve muito trabalho para escolher, entre palavras que já são raras, aquelas que coubessem nos seus versos. O sistema de acentuação da nossa língua é muito bem feito. Resta a você seguir as regras e não ser tímido em acentuar quando necessário.

Uso do acento na palavra “quê”

Os monossílabos tônicos terminados ema,”e“,”o“, “as“, “es” e “os” sempre têm acento. Ocorre que nem sempre a palavra “que” funciona como monossílabo tônico. Pelo
contrário, quase sempre aparece como monossílabo átono:

Eu quero que você me diga…

Observe que na frase acima o “que” é lido como “qui”, ou seja, é átono, tem sonoridade fraca. Portanto a palavra “que” usada como conjunção, unindo orações, é um monossílabo átono.
Mas há casos em que a palavra leva acento circunflexo, como na letra da canção “Comida”,
gravada por Marisa Monte:

Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

Vemos que, nesse caso, “quê” é tônico, possui uma sonoridade mais forte que no exemplo
anterior e é a última palavra da frase. Trata-se de um monossílabo tônico terminado em “e” e,
portanto, leva acento. Uma dica: a palavra “quê”, quando é a última palavra da frase, sempre leva acento circunflexo.
A palavra “quê” também leva acento em outra situação: quando é usada como
substantivo:

Ela tem um quê de misteriosa…
Ela tem um ar de misteriosa…
Ela tem um jeito de misteriosa…

Sem dúvida, a palavra “quê” usada dessa forma, como substantivo, também é um monossílabo tônico. Portanto deve ser acentuada.

“arrochar” e “arroxar”

Todos sabemos que em muitas situações o “x” tem o mesmo som que o grupo “ch”. Isso muitas vezes nos deixa em dificuldades na hora de escrever. Veja este trecho de “Me pegue pra chamegar”, música de Tadeu Mathias gravada por Elba Ramalho:

Eu sou, eu sei que sou o seu amor
eu vou a noite toda com você
nesse chamego arrochado
que me deixa louca de tanto prazer

O vócabulo “arrochado” é escrito com “ch” e significa apertar. “Nesse chamego arrochado” é uma construção equivalente a “nesse chamego apertado, agarrado”. Os dicionários dizem que “arrochar” com “ch” é palavra de origem obscura, ou seja, não se sabe ao certo qual é a origem, mas sabe-se que o significado é esse.

Existe também “arroxar”, com “x”, forma equivalente a “roxear” e “arroxear”. Ambos os termos dizem respeito à palavra “roxo”. Então “arroxar”, “arroxear” e “roxear” significam “tornar(-se) roxo”.

“Vigir” ou “viger”?

O “Nossa Língua Portuguesa” foi às ruas e fez esta pergunta às pessoas:

A lei estará em vigência no próximo mês. Portanto ela vai vigir ou vai viger?

Das oito pessoas consultadas, três responderam “vigir”, três optaram por “viger”, e duas não souberam responder. De fato, a palavra “viger“, que é a forma correta, faz parte do chamado jargão jurídico e é pouco usada em nosso dia-a-dia.

Viger = estar em vigência, entrar em vigor, vigorar

Quando a lei vige, ela está em vigor. Quando ela ainda não vige, mas vai viger, então entrará em vigor. Escreva sempre “viger“, e não “vigir” !

Composição
“sanguessuga”

Será que toda palavra composta tem hífen? Palavra composta é aquela em cuja formação entram pelo menos duas ou mais palavras. Extraímos um exemplo da música a seguir, chamada “Não enche”, de Caetano Veloso.

Harpia, aranha
sabedoria de rapina e de enredar, de enredar.
Perua, piranha
minha energia é que mantém você suspensa no ar
Pra rua!, se manda
sai do meu sangue, sanguessuga, que só sabe sugar.
Pirata, malandra
me deixa gozar, me deixa gozar
me deixa gozar, me deixa gozar.

Caetano Veloso aí aponta o significado da palavra “sanguessuga” ao dizer “sai do meu sangue, sanguessuga que só sabe sugar”.

O bichinho sanguessuga faz justamente isso: suga o sangue.
A palavra em questão é composta, embora ela tenha um processo de formação interessante. Normalmente, quando um verbo se associa a um substantivo para formar uma palavra composta, a ordem da combinação é verbo e depois substantivo.

Palavras desse tipo não faltam na língua: “toca-fitas”, “guarda-pó”, “mata-mosquito” etc.

No exemplo acima, ocorreu o contrário. O substantivo “sangue” veio antes, e o verbo ficou na segunda posição. A palavra é composta, grafada com dois esses e sem hífen: “sanguessuga”.

Contração
“embora”, “aguardente”, “daqui”

Muitas palavras que usamos surgiram da fusão de outras. Assim, por exemplo, a palavra “embora” deriva da fusão de TRÊS outras palavras:

em, boa” e “hora

Outros exemplos:

pernalta = fusão de “perna” e “alta
aguardente = fusão de “água” e “ardente

Uma soma muito comum é a das preposições, como “de”, “em” e “por”, com palavras de outras classes gramaticais. Exemplos:

daqui = soma da preposição “de”com a palavra “aqui”
nesta = soma da preposição “em” com a palavra “esta”
pelo = soma da preposição “por” com a palavra”o”

A essa soma de palavras damos o nome de “contração”. Veja um trecho da letra da canção “Até o fim”, gravada por Chico Buarque:

… Minha mulher fugiu com o dono da venda, o que será de mim?
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou, mas vou até o fim.
Como já disse, era um anjo safado, o chato dum querubim
que decretou que eu tava predestinado a ser todo ruim…

A expressão “dum“, derivada da fusão da preposição “de” com o artigo indefinido “um”, é perfeitamente aceita e abonada pelos dicionários, assim como “num”, que é a fusão da preposição “em” com o artigo indefinido “um”:

Ela gosta de um rapaz esquisito. / Ela gosta dum rapaz esquisito.
Ele mora em uma rua escura. / Ele mora numa rua escura.

Por outro lado, algumas fusões não têm tradição na língua, como “pronde”, que também está na letra de Chico Buarque:

Pronde mesmo que vou? / Pra onde mesmo que vou?

“Pronde” é uma fusão um tanto radical. Não é, ao menos por enquanto, abonada ou registrada pelos dicionários. Convém usá-la somente em textos em que a linguagem é utilizada com mais liberdade e evitá-la nos textos mais formais.

Veja as contrações mais consagradas, que podemos usar sem susto:

no / na
dum / duma
num / numa
neste / nesta
daquele / daquela
naquele / naquela

Na dúvida, consulte o dicionário. Veja se a contração está oficializada, se tem registro no padrão formal da língua.

Derivação imprópria
“comício monstro”

É comum ouvirmos expressões como “manifestação monstro”, “concerto monstro” ou “comício monstro”. Se olharmos no dicionário, vamos conferir que “monstro” é, primeiramente, um ser assustador, pavoroso. Trata-se em primeiro lugar de um nome, um substantivo. Mas veremos também que “monstro” é adjetivo, com a acepção de “muito grande”, “fora do comum”.

Quando dizemos “espetáculo monstro”, por exemplo, usamos a palavra “monstro” como adjetivo, para qualificar. Passa a significar “grande”, “muito grande”, “excessivamente grande”. O emprego de uma palavra fora de sua classe gramatical usual tem um nome: derivação imprópria.

Imprópria por quê? Porque essa derivação foge ao padrão da língua, isto é, determinada palavra está sendo utilizada fora do padrão habitual no qual ela é empregada. Além disso, a derivação ocorre em um processo diferente do usual.

Normalmente, quando queremos fazer uma palavra derivar de outra, acrescentamos prefixos ou sufixos, como podemos observar nos exemplos abaixo:

honesto – desonesto
honesto – honestidade
feliz – infeliz
f eliz – felicidade

A derivação imprópria supõe um processo diferente, bastante enriquecedor. Vejamos a seguir trechos de duas canções em que aparecem exemplos de derivação.

A primeira é “Pobre paulista”, gravada pelo Ira!:

Todos os não se agitam
toda adolescência acata
e a minha mente gira
e toda ilusão se acaba…

A outra canção é “Vou tirar você do dicionário”, gravada por Zélia Duncan:

Eu vou tirar você de mim assim que descobrir
com quantos nãos se faz um sim
eu vou tirar o sentimento do meu pensamento
sua imagem e semelhança vou parar o movimento
a qualquer momento procurar outra lembrança.

Nas duas letras, a palavra “não” é utilizada como substantivo. “Não” normalmente é um advérbio e modifica verbos: “não vou”, “não faço”, “não digo”. Nas letras que vimos, a palavra aparece como substantivo e tem de ser tratada como tal. Por isso deve fazer a flexão no plural:

“todos os nãos se agitam”
“com quantos nãos se faz um sim”

Não escreva, portanto, “os não”, mas sempre “os nãos“.

 

 

Derivação parassintética
“Esvaziou” ou “desvaziou”?

Houve um lance incrível de futebol em que o árbitro anulou um gol alegando que a bola estava furada. O que será que aconteceu quando o jogador chutou?

A bola murchou, a bola esvaziou-se.

Um jogador do time disse que a bola desvaziou. O correto seria dizer que a bola esvaziou, do verbo “esvaziar”. É perfeitamente compreensível esse desvio cometido pelo jogador porque os prefixos “de-” e “des-” entram na formação de muitas palavras da língua e possuem valores diversos.

Nem sempre o “des-” indica negação. Recentemente um cantor manifestou que “desconcordava”, e muita gente o censurou dizendo que ele não sabia português. Porém basta uma consulta aos dicionários para ver que o verbo “desconcordar” existe, sim, e é sinônimo de “discordar”.

Também é preciso levar em conta que algumas palavras têm forma dupla, como “esgarrado” e “desgarrado”, “esgarrar” e “desgarrar”, “espertar” e “despertar” e tantas outras em que entra ou não entra o elemento “de-” ou o elemento “des-“, com vários valores. Esse valor pode ser ora negativo, ora positivo. Às vezes, como aponta o Aurélio, chega a ter valor de reiteração, como ocorre com a palavra “deslavrar”, que quer dizer “lavrar de novo”.

Sufixação
“-oso”,”-osa”

Não é novidade para ninguém que, em português, o capítulo de ortografia oferece várias dificuldades. Todos já ficamos confusos alguma vez em relação ao uso do “s” e do “x“, do “x” e do “ch“.

Muitas pessoas dizem, por exemplo, que na palavra “lixo” o “x” tem som de “ch”. Nada disso. Na palavra “cachorro”, por exemplo, o “ch” é que tem som de “x“, e não o contrário! Em “lixo”, o “x” tem o som dele mesmo, afinal o nome da letra é “xis”!

Vamos ver a canção “Olhar 43”, de Paulo Ricardo, para comentarmos outro caso que deixa as pessoas em dúvida:

… é perigoso o seu sorriso
é um sorriso assim, jocoso
impreciso, diria misterioso
indecifrável riso de mulher…

Vimos o emprego das palavras “perigoso”, “jocoso”, “misterioso”, palavrinhas que têm o sufixo -oso“. É um sufixo que indica a idéia de posse plena, de abundância, de existência em grande quantidade. É bom lembrar: o sufixo “-oso” é sempre com “s”, jamais com “z”.

perigoso = com muito perigo
misterioso = cheio de mistério
jocoso = com muita jocosidade

Tomemos outro exemplo, tirado à canção “Vitoriosa”, de Ivan Lins. A letra é de Vítor Martins:

… quero sua risada mais gostosa
esse seu jeito de achar
que a vida pode ser maravilhosa.
Quero sua alegria escandalosa
vitoriosa por não ter vergonha
de aprender como se goza.

Nessa canção vimos o sufixo “-oso” no feminino. “Gostosa”, “maravilhosa”, “escandalosa” etc. Sempre com “s”! E vimos também a palavra “goza“, com “z”. Mas ela não tem nada a ver com a nossa história. “Goza” é forma do verbo “gozar”, com “z”.

Então, cuidado! Não basta que o som seja semelhante a “oso” e “osa” para colocarmos o “s”.

Precisamos entender o significado da palavra. Se for sufixo designando posse plena ou grande quantidade, aí, sim, a grafia correta é com “s”.

Gênero
“champanhe” “grama” “moral” “libido”

Em Belém do Pará, não é difícil ouvir alguém dizer: “Levei uma tapa”.

Um rápida consulta ao dicionário nos esclareceria que “uma tapa”, “um tapa”, “o tapa” e “a tapa” são formas corretíssimas. Trata-se de uma palavra que pode ser tanto do gênero masculino como do gênero feminino.

Caso semelhante ao de “tapa” é o de “sabiá”. Na canção “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, temos:

Vou voltar.
Sei que ainda vou voltar
para o meu lugar.
Foi lá e é ainda lá
que eu hei de ouvir cantar
uma sabiá, o meu sabiá.

Chico Buarque usou as duas formas. Ambas estão corretas, como nos mostram os dicionários.

Algumas palavras, porém, não admitem duplo gênero.

É o caso de “dó”. Ouve-se falar “Você não imagina a dó que eu senti”, quando a construção correta seria “Você não imagina o dó que eu senti”. “Dó” é do gênero masculino. “O dó”, portanto, é a construção adequada, ainda que seja muito pouco usada no dia-a-dia.

Em muitos lugares ouve-se “a champanhe“, quando o correto seria”o champanhe“e”o champanha”. A palavra pode ser escrita com “e” ou com “a” no fim, mas deve ser acompanhada sempre de artigo masculino, e nunca de artigo feminino.

Outro problema são aquelas palavras cujo sentido muda quando o gênero é alterado. É o caso de “grama”. Não se deve confundir “o grama” com “a grama”, “o moral” com “a moral”. “O grama” é a unidade de massa.

Compram-se duzentos gramas de queijo.

Já “A grama” é o vegetal, a designação comumente dada a várias espécies de gramíneas.

Não pise naquela grama!

Por sua vez, “O moral” é o estado de espírito.

O time está com o moral elevado.

“A moral” é o código de princípios de uma sociedade.

A moral dos judeus é diferente da dos cristãos.

Temos outro caso interessante no trecho a seguir da canção “Seduzir”, gravada por Djavan:

Amar é perder o tom nas comas da ilusão.
revelar todo o sentido
Vou andar, vou voar para ver o mundo.
Nem que eu bebesse o mar
encheria o que eu tenho de fundo…

Nesse trecho, vimos que Djavan usou a palavra “comas”. De acordo com os dicionários, a palavra “coma” tem vários significados. Na letra de “Seduzir” ela foi usada com o significado de “estado de inconsciência”, “estado de coma”. Trata-se de uma palavra que pode ser indiferentemente masculina e feminina: “o coma” ou “a coma”.

A língua falada, do dia-a-dia, não assimila com facilidade o gênero culto de algumas palavras.

Vejamos outro caso, a palavra “libido”, usada na canção “Alívio Imediato”, gravada pelos Engenheiros do Hawaii:

…A Líbia bombardeada, a libido e o vírus
o poder, o pudor, os lábios e o batom…

Agora observemos a mesma palavra ser utilizada na canção “Garota Nacional”, gravada pelo Skank:

… Porque ela derrama um banquete, um palacete
um anjo de vestido, uma libido do cacete…

A grafia está correta na letra das duas músicas: “a libido“. Não existe a forma “o libido”.

Quando houver dúvida quanto ao gênero de palavras, recorra sempre ao dicionário.

Gênero
masculino de “primeira-dama”

Quando um homem é eleito prefeito, sua mulher se torna a primeira-dama da cidade. A mulher do governador torna-se a primeira-dama do Estado, e a do presidente, primeira-dama da nação. Mas como deveríamos chamar o marido de uma mulher que tenha sido eleita para um desses cargos?

Para responder a essa pergunta, precisamos descobrir o masculino de “primeira-dama”. Basta pegarmos o masculino de “dama”, que é “cavalheiro”, e formar o substantivo composto “primeiro-cavalheiro”. Essa construção pode parecer estranha, mas ela é correta:

primeira-dama
primeiro-cavalheiro

É importante não confundir “cavalheiro” com “cavaleiro”, que é a pessoa que monta a cavalo.

Gênero
“o pipa” ou “a pipa”?

Você já ouviu alguém dizendo “o pipa”? A palavra “pipa” é substantivo feminino ou masculino?
Os dicionários dizem que “pipa” é palavra feminina: a pipa.

Quanto a “o pipa”, é provável que tenha ocorrido aí aquilo que se chama de contaminação, de cruzamento. Como “pipa”, “quadrado” e “papagaio”, por exemplo, são sinônimos, e “quadrado” e “papagaio” são palavras masculinas, pode ter se dado um cruzamento, uma troca de gênero entre os substantivos.
De qualquer maneira, é bom lembrar que os dicionários não abonam isso e registram “pipa” como palavra feminina: a pipa.

É bom que se saiba também que a palavra tem vários sinônimos: “arraia”, “cafifa”, “pandorga”, além de “quadrado”, já mencionado. Como lembra o Aurélio, no Nordeste ainda haveria os substantivos balde” e “tapioca” utilizados com esse sentido.

Flexão de grau
diminutivo

Num comercial de TV há um diálogo entre um médico e uma mulher em que esta diz a certa altura: “É azia, doutor. Mas eu já estou providenciando uma colherzinha de Gastran”.

De fato, o diminutivo de “colher” é “colherzinha“.

No dia-a-dia, porém, é comum ouvirmos “uma colherinha”, que parece até mais afetivo. E “bar”? Você diria “barinho” ou “barzinho” ? É mais provável que diga “barzinho”.

Quando o substantivo termina em “r”, a tendência é que se faça o diminutivo com o acréscimo de “-zinho” ou “-zinha”. “Colherinha“, em linguagem familiar, é perfeitamente aceitável. Mas, conforme a gramática normativa, o correto seria “colherzinha“.

Vamos a um exemplo tirado da canção “Coisa bonita”, gravada por Roberto Carlos:

Amo você assim e não sei por que tanto sacrifício
ginástica, dieta não sei pra que tanto exercício
olha, eu não me incomodo
um quilinho a mais não é antiestético
Pode até me beijar, pode me lamber
que eu sou dietético…

Essa música de Roberto e Erasmo Carlos foi feita para as pessoas que são, digamos, gordinhas. Quando se diz “gordinho” ou “gordinha”, usa-se o diminutivo, no caso diminutivo de um adjetivo. Esse diminutivo tem um valor afetivo: “gordinho” é um termo mais delicado que “gordão”, que é o aumentativo. Nesse caso, o diminutivo não transmite necessariamente a idéia de tamanho, e sim a idéia de algo mais delicado, suave, afetivo, como fizeram os compositores com a palavra “quilinho”. Na verdade, não pode haver um quilo menor do que outro quilo. Ao pé da letra, “quilinho” é um absurdo. Na letra da música, no entanto, a palavra adquire um valor afetivo justamente por causa do diminutivo.

Vamos ver outro exemplo, a canção “Azul”, gravada por Djavan:

… até o sol nascer amarelinho queimando mansinho
cedinho, cedinho, cedinho

Corre e vai dizer pro meu benzinho
um dizer assim o amor é azulzinho

Nessa canção, Djavan usa e abusa do diminutivo afetivo. Para se referir às cores, por exemplo, ele usa “amarelinho”, “azulzinho”. E recorre ao diminutivo afetivo também com relação ao advérbio “cedo” (cedinho) e ao adjetivo “manso” (mansinho).

O diminutivo deve ser compreendido pelo valor específico que ele tem (de tamanho pequeno) e por valores como o afetivo e o depreciativo. Quando se fala “um homenzinho”, por exemplo, nem sempre o homem que se tem em vista é pequeno. A pessoa pode usar o diminutivo não com a intenção de fazer referência ao tamanho da pessoa tampouco para transmitir afeto, mas com a intenção de ofender: “um homenzinho” pode equivaler a “um homem insignificante”.

São vários os valores do diminutivo. Vimos aqui alguns exemplos, mas há outros que podem ser utilizados na vida diária.

Número
“patins”, “óculos”

As pessoas comumente dizem “o patins”. No entanto a forma “patins” é plural. São “os patins” ou, então, “o patim”. O mesmo erro acontece, normalmente, com a palavra “óculos”. Duas canções ilustram bem o problema.

A primeira é “Vampiro”, de Jorge Mautner. A outra é “Como vovó já dizia”, de Raul Seixas e Paulo Coelho. A letra de “Vampiro” diz:

Eu uso óculos escuros pra minhas lágrimas esconder

Jorge Mautner fala em “óculos escuros” e acerta. “Óculos” é plural de “óculo”. Usamos dois óculos, um óculo para a vista direita e outro óculo para a vista esquerda. Logo, o aparelho corretor chama-se óculos.

Raul Seixas diz:“… quem não tem colírio usa óculos escuro”. A concordância aqui não está adequada. A construção correta seria óculos escuros.

“Óculos” é plural, assim como “férias”. Diz-se “As minhas férias” e não “A minha férias”. Não se deve confundir “férias” com “féria”, no singular, que é a arrecadação de dinheiro de um certo período.

Do mesmo modo, não se diz “o ciúmes”, mas “o ciúme”.

As cadeiras são azul-claras, as camisas azul-escuras.

Nesse caso a regra é esta: quando se trata de um adjetivo composto formado por dois adjetivos, mantém-se o primeiro e altera-se só o segundo. Exemplos:

proposta luso-brasileira, sentimentoluso-brasileiro
cadeira azul-clara, cadeirasazul-claras

Número
Plural de “sol”

(…)
Mas você pode ter certeza
de que seu telefone irá tocar
em sua nova casa
que abriga agora a trilha
incluída nessa minha conversão.
Eu só queria te contar
que eu fui lá fora
e vi dois sóis num dia
e a vida que ardia
sem explicação…
.

A letra acima foi extraída de “O segundo sol”, canção de Nando Reis. Será que a palavra “sol”tem plural? Tem, sim. Não importa que exista apenas um sol. Essa palavra portuguesa pode perfeitamente ser pluralizada. O plural de “sol” é “sóis”.
Qual é a regra que está por trás disso? Os substantivos terminados em “-al”, “-el”, “-ol” e “-ul” fazem o plural pela transformação do “l” dessas terminações em “-is”.

sol/sóis
guarda-sol/guarda-sóis
canal/canais
papel/papéis

As exceções são “mal”, “real (quando nome de moeda) e cônsul, cujo plural é, respectivamente, “males”, “réis” e “cônsules”.

É preciso lembrar que em “sóis”, por exemplo, temos um ditongo aberto, “ói”, que é tônico e deve ser acentuado.
No caso de”guarda-sol” temos uma palavra composta formada por um verbo, “guarda”, e um substantivo, sol”. Para formar o plural em casos como esse, só o substantivo deve ser alterado.

o guarda-sol
os guarda-sóis.

Número
“giz”, “gravidez”

A palavra “ônibus” é plural ou singular? É as duas coisas, assim como a palavra “lápis”.

singular: o ônibus / o lápis
plural: os ônibus / os lápis

Por que isso acontece? Os substantivos terminados em “-s” são invariáveis quando paroxítonos (“lápis”) ou proparoxítonos (“ônibus”).

De um modo geral, no entanto, os substantivos terminados em “-s” formam o plural com o acréscimo de “-es” (desde que não sejam paroxítonos ou proparoxítonos).

Se a palavra termina em “-r” ou “-z”, também forma o plural com “-es”. Muitos duvidam de que “giz” tenha plural. Como “cruz”, esse substantivo varia normalmente:

o giz
os gizes

Outros exemplos de palavras terminadas em “-z” ou “-r”:

a luz / as luzes
a gravidez/ as gravidezes
o prócer/os próceres
o mar/os mares
a raiz/as raízes

No caso de dúvida, uma boa saída é a consulta a um bom dicionário.

Número – Flexão de palavras compostas
Pau-de-arara / Pôr-do-sol

Neste módulo o Professor Pasquale Cipro Neto trata de um assunto que sempre desperta dúvidas: o plural de palavras compostas.

Começa alertanto para uma das regras:
Em substantivos compostos com preposição no meio, varia apenas o primeiro elemento.

Para exemplificar, recorre a um trecho da música “O rancho da goiabada”, de João Bosco e Aldir Blanc:

Ai, são pais-de-santo, paus-de-arara, são passistas….
Os bóias-frias quando tomam umas biritas…

Exemplos:

Pau-de-arara

paus-de-arara

Pôr-do-sol

pores-do-sol

Mula-sem-cabeça

mulas-sem-cabeça

Outra regra diz que, em substantivos compostos formados por substantivo e adjetivo, variam os dois elementos.

Exemplos:

Bóia-fria

bóias-frias

Cavalo-marinho

cavalos-marinhos

Capitão-Mor

capitães-mores

A música “Verde e amarelo”, de Roberto e Erasmo Carlos, sugere a terceira regra: em adjetivo composto formado por dois adjetivos, varia apenas o segundo elemento.

“verde e amarelo
verde e amarelo

É a camisa que eu visto
azul e branco também …”

O professor aproveita e chama a atenção para um erro de concordância presente na letra. “Camisa”é substantivo feminino, portanto é “verde e amarela” a camisa que eu visto e não, “verde e amarelo“. Quanto ao plural o correto é dizer “camisas verde-amarelas“.

Outros exemplos:

Proposta ítalo-brasileira

propostas ítalo-brasileiras

Clínica médico-odontológica

clínicas médico-odontológicas

Camisa vermelho-escura

camisas vermelho-escuras

 

 

 

 

 

 

 

Número – Flexão de palavras compostas
“mulas-sem-cabeça”, “pés-de-moleque”

Palavra composta é aquela que resulta da fusão de duas ou mais palavras. Algumas podem surpreender: “planalto”, por exemplo, é resultado da soma de “”plano” e “alto”, e “petróleo” resulta da soma de “pedra” e “óleo”. “Planalto” e “petróleo” são palavras compostas, como “couve-flor” e guarda-chuva”.

Vejamos um trecho da letra de “Anjo de mim”, canção de Ivan Lins e Vítor Martins:

Anjo de mim
Me faz amor
Abraçadinho
Meu coração
Começo e fim
Meu pôr-de-mim

Observe que o poeta Vítor Martins, autor da letra, criou a expressão “pôr-de-mim”. Ela se assemelha a “pôr-do-sol”, que por sua vez aparece na canção “Lilás”, de Djavan:

… Raio se libertou
Clareou muito mais
Se encantou pela cor lilás
Prata na luz do amor
Céu azul
Eu quero ver o pôr-do-sol
Lindo como ele só
E gente pra ver e viajar
no seu mar de raio

Como fica o plural de palavras compostas, como “pôr-de-mim”, “pôr-do-sol”, “mula-sem-cabeça”, “pé-de-moleque” etc.? Todas essas palavras são substantivos compostos com preposição entre as duas palavras que os formam. Para formar o plural, basta que se flexione apenas o primeiro elemento:

mulas-sem-cabeça
pés-de-moleque
pores-do-sol
pores-de-mim

Cuidado com um detalhe: o verbo “pôr” tem um acento diferencial. Já o plural do verbo substantivado, “pores”, não leva o acento.

 

 

Ordinais, cardinais
“Essa mulher é dez

Na vida escolar, todos nós um dia aprendemos os numerais, aquela classe de palavras que trata dos números. “Um, dois, três…” são os cardinais, que indicam quantidade. “Primeiro, segundo, terceiro…” são os ordinais, que indicam ordem. Depois temos “dobro, triplo, quádruplo…”, que são os multiplicativos. Temos ainda “um meio, um terço, um quarto…”, que são os fracionários.

Os numerais podem adquirir maior expressividade quando assumem outras funções gramaticais.

Vamos a um trecho da canção “Corações a mil”, gravada pela cantora Marina Lima:

Minhas ambições são dez
dez corações de uma vez
pra eu poder me apaixonar
dez vezes a cada dia
setenta a cada semana
trezentas a cada mês…

A letra diz: “Essa mulher é dez”. Por que “dez”? Porque vem de “nota dez”, a nota máxima. O numeral deixa de ter valor numérico e passa a ter valor de adjetivo.

No verso “minhas ambições são dez”, podemos ter um duplo sentido. Elas são “dez” porque são maravilhosas, são valiosas. Ou são mesmo dez ambições.

Em seguida, Gilberto Gil (autor da letra) começa a fazer contas na letra da música: se são dez vezes por dia, são setenta em uma semana e trezentas em um mês. É mesmo um modo criativo de utilizar os numerais, reforçando o exagero para mostrar a força da idéia. A começar pela letra da música, “Corações a mil”. Nós usamos muito essa expressão, “hoje estou a mil”, ou seja, “estou a mil por hora”, “estou com o gás todo.”

“Sob”, “sobre”

Sob nova direção”. Lemos comumente essa frase em faixas de postos, bares, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais. Algumas vezes o que está escrito, no entanto, é: “Sobre nova direção”. E agora?

O “Nossa Língua Portuguesa” foi às ruas perguntar qual a forma correta:

“O posto está sob nova direção ou sobre nova direção?”

O resultado foi animador: das seis pessoas entrevistadas, cinco acertaram. Responderam “O posto está sob nova direção”.

Sob = embaixo
Sobre = em cima

Se você coloca o livro sobre a mesa, você está colocando o livro em cima da mesa. Se você coloca o livro sob a mesa, ele, então, ficará embaixo da mesa. “Sob” e “sobre“, portanto, têm significados opostos.

Vejamos uma canção em que essas preposições aparecem. Chama-se “A mesma praça”, de Paulo Miklos:

Sou do chão negro asfalto
da avenida São João
Sob o escuro manto fumaça
sombra do minhocão
Sob o céu cinzento de
São Paulo insano e mau
Brasileiro cuspido dos canhões
na Hungria cigano e bárbaro
bastardo dos portugueses
mouro feroz e bárbaro
desorientado dos beijos de
línguas e lugares embaralhados
Da rua Apa quando desaba
a Barra Funda dos prostíbulos
de toneladas de poeira e fuligem
sobre a poesia
Judeu de disfarce católico
ateu crente no candomblé
de todas as fugas e enfrentamentos
continuo de pé.

Paulo Miklos utiliza as duas expressões com consciência, e a diferença fica bem clara. É simples, não? Basta apenas um pouco de atenção para não confundir as duas palavras.

Pronomes de tratamento
“Vossa Excelência”

O tema deste módulo são os pronomes de tratamento, usados normalmente em situações de cerimônia: Vossa Excelência, Vossa Senhoria, Vossa Alteza etc.

Quando o presidente fala em cadeia nacional, o locutor diz “Vamos ouvir a palavra do Excelentíssimo Senhor Presidente da República…”.

O presidente é Excelência. Usa-se esse pronome de tratamento para todas as autoridades constituídas, do vereador ao presidente.

É oportuno aqui tocar numa dúvida comum em relação aos pronomes de tratamento: quando usar “Vossa” e “Sua“? Ao falarmos diretamente com a pessoa, devemos usar “Vossa“; quando estivermos falando da pessoa, usaremos “Sua“.

Aproveitando o exemplo acima: o locutor da Agência Nacional anunciaria aos brasileiros “Sua Excelência, o Presidente da República …”. No caso, o locutor estaria falando do Presidente.Se estivesse falando com o presidente, o correto seria ” Vossa Excelência…”.

Outra confusão corrente é quanto ao uso do possessivo. Qual das duas formas a seguir seria correta:

Vossa Senhoria deve expor seu projeto
ou
Vossa Senhoria deve expor vosso projeto?

O “Nossa Língua Portuguesa” fez essa pergunta às pessoas na rua. A maioria respondeu “… expor vosso projeto”. A maioria, portanto, errou.Vossa Senhoria é pronome de tratamento e pertence sempre à 3ª pessoa. “Vosso” seria correto se estivesse combinado a “vós”.

Ex: Vós deveis apresentar vosso projeto.

Há uma dica para facilitar a compreensão. Pense na palavra “você”, que também é pronome de tratamento da 3ª pessoa.Como você diria:

Você deve expor seu pensamento
ou
Você deve expor vosso pensamento?

A alternativa correta é a primeira.
Se “Vossa Senhoria” ou “Vossa Excelência” são de 3ª pessoa, usamos “seu” projeto ou “seu” pensamento.

Caso você encontrasse o Presidente da República, perguntaria a ele: “Vossa Excelência recebeu a carta que lhe enviei” ou “Vossa Excelência recebeu a carta que vos enviei”?

O correto seria “a carta que lhe enviei”. Eu enviei ao Senhor, a Vossa Excelência, a você e, portanto, “lhe enviei”.

Os pronomes de tratamento sempre estão relacionados à 3ª pessoa.

Uso culto e uso popular
“Eu vi ela”

Dois amigos conversam:

Amigo 1: “Faz tempo que não vejo ela”.
Amigo 2: “Pois eu vi ela ontem à noite”.

Há quem brinque com esse tipo de construção da frase: “Eu vi ela, tu rua, ele avenida”…
No português falado do Brasil, na língua do dia-a-dia, o pronome reto (eu, tu, ele, nós, vós, eles) assumiu definitivamente o papel de complemento verbal. Nós dizemos, no dia-a-dia, “faz tempo que não vejo ele”, “eu vou encontrar ela amanhã” e por aí vai. Isso não está no padrão formal da língua portuguesa. O correto seria:

Faz tempo que eu não o vejo.
Eu devo encontrá-la amanhã.

No padrão formal, frases como “Faz tempo que não vejo ele” não são aceitas de jeito nenhum, mas são tão usadas que acabam se tornando uma tendência em outros ambientes lingüísticos.

Vamos a um exemplo, a canção “O astronauta de mármore”, gravada pelo grupo Nenhum de Nós:

… Sempre estar lá e ver ele voltar
não era mais o mesmo, mas estava em seu lugar
sempre estar lá e ver ele voltar
o tolo teme a noite como a noite vai temer o fogo
vou chorar sem medo
vou lembrar do tempo
de onde eu via o mundo azul…

Você notou o uso, por duas vezes, da expressão “ver ele voltar”. O correto, pelo padrão culto, seria “vê-lo voltar”. Essa discussão nunca vai ter fim. Na fala do dia-a-dia, no Brasil, esse uso errado já está sacramentado. Mesmo assim, coloque o pronome corretamente ao redigir um texto formal.

Uniformidade de tratamento
O pronome “tu”

Na linguagem do dia-a-dia, no Brasil, é comum a mistura de pronomes da 2ª pessoa com pronomes da 3ª pessoa, como “você” (que é pronome da 3ª pessoa) e “te” ou “teu” (que são pronomes da 2ª pessoa).
Exemplo:

Você se enfiou onde, meu Deus? Eu te procurei, mas não te achei.

O padrão formal da língua exige a uniformidade de tratamento: todos os pronomes devem ser da 2ª pessoa, ou todos os pronomes devem ser da 3ª pessoa. Assim, o correto seria:

Tu te enfiaste onde? Onde tu te enfiaste? Eu te procurei, mas não te encontrei.
Você se enfiou onde, meu Deus? Eu o procurei, mas não o encontrei.

Há uma canção cantada por Dick Farney, “Copacabana”, que é um primor quanto à uniformidade de tratamento:

Existem praias tão lindas, cheias de luz
Nenhuma tem o encanto que tu possuis
Tuas areias, teu céu tão lindo
Tuas sereias sempre sorrindo, sempre sorrindo.
Copacabana, princesinha do mar
Pelas manhãs tu és a vida a cantar
E à tardinha o sol poente
Deixa sempre uma saudade na gente.
Copacabana, o mar, eterno cantor
Ao te beijar ficou perdido de amor.
E hoje vivo a murmurar.
a ti, Copacabana, eu hei de amar.

Todo o texto foi escrito na 2ª pessoa do singular. “Tu“, pronome da 2ª pessoa, os possesivos e os oblíquos todos na 2ª pessoa e também os verbos conjugados adequadamente:

Tuas areias, teu céu tão lindo…
Só a ti, Copacabana…
Tu és a vida a cantar
Tu possuis…

A uniformidade de tratamento é necessária na linguagem formal. Na linguagem coloquial, procede-se de maneira diferente.

Uniformidade de tratamento
Os pronomes “te” e “lhe”

Na linguagem do dia-a-dia é muito comum o uso de pronomes de pessoas diferentes.

Você fez o que eu te pedi?

Na linguagem formal isso não seria posssível.”Você” é 3ª pessoa, “te” é 2ª pessoa. O correto seria dizer:

Você fez o que eu lhe pedi?

Às vezes o exagero é maior. Veja o exemplo no nome da música “Eu te amo você”, de Kiko Zambianchi.

São dois os problemas nesse título: a mescla de “te“, que é pessoa, e de “você“, que é pessoa. Ocorre também uma repetição desnecessária de pronomes: “Eu te amo você“.

É perfeitamente possível dizer “Eu te amo a ti“, já que os pronomes estão na mesma pessoa. No
dia-a-dia ouve-se também “Eu te disse pra você”. O correto seria “Eu te disse a ti“. Mas é uma forma inadequada para o padrão informal. Ficaria melhor numa linguagem mais formal.

Substantivos abstratos
“ciúme” / “saudade”

Todo mundo um dia estudou a diferença entre substantivos concretos e substantivos abstratos, embora nem sempre essa diferença tenha ficado clara.

Um apelo que deve ser feito de modo genérico aos professores de português: evitem ensinar aos alunos que substantivo concreto é aquele “que se pode pegar” e que substantivo abstrato é aquele “que não se pode pegar”. Isso não é de nenhum modo preciso.

Substantivos concretos designam os seres de existência independente, reais ou imaginários. Os substantivos abstratos são aqueles que dão nome a estados, qualidades, sentimentos ou ações. O ato de quebrar é “quebra”. O ato de participar é “participação”. O ato de vender é “venda”, e assim por diante. Todos esses substantivos são abstratos. Como diz Gilberto Gil na música “Rebento”:

Rebento, substantivo abstrato….

Por que abstrato? Porque “rebento” é o ato de rebentar. Nomes de sentimento, como “amor“, de estado, como “gravidez“, e de qualidade, como “inteligência“, também são substantivos abstratos.

Existe uma polêmica quanto ao plural dos substantivos abstratos: existe o plural dessas palavras?

Cada caso é um caso. Você faria o plural de “raiva”, por exemplo? Ou de “inveja”? São palavras que soam esquisitas no plural, mas isso não estabelece uma regra. Vejamos um exemplo com a palavra “ciúme”. Observe a letra da canção “Olhos nos olhos”, gravada por Maria Bethânia:

…Quando você me deixou,
meu bem,
me disse pra eu ser feliz
e passar bem.
Quis morrer de ciúme,
quase enlouqueci
mas depois, como era
de costume, obedeci…

Você notou, a certa altura, o verso “quis morrer de ciúme”. Muitas pessoas dizem “ciúmes”. Não há nada errado com essa forma, mas é preciso escolher: dizemos ou “o ciúme” ou “os ciúmes”. Nunca “o ciúmes”. Na verdade, a forma singular – “o ciúme” – é preferencial, já que em tese o substantivo abstrato não se pluraliza, ao menos na maioria dos casos. Vejamos outro caso, agora tomando como exemplo a canção “Você pra mim”, gravada por Fernanda Abreu:

Às vezes passo dias inteiros
imaginando e pensando em você
e eu fico com tantas saudades
que até parece que eu posso morrer.
Pode acreditar em mim.
Você me olha, eu digo sim…

A exemplo do que acontece com “ciúme”, não são poucas as pessoas que dizem “estou com uma saudades de você”. Ora, é necessário sempre fazer concordar o substantivo com seu determinante. Se o substantivo vai para o plural, o pronome ou o artigo devem ir também.

Aspecto Verbal
tempo presente e tempo futuro

Quando uma pessoa diz “Tomo banho todos os dias“, será que naquele exato momento ela está tomando banho? Não. O verbo está no presente, mas sua função é indicar um fato que se repete, um presente habitual.

Numa aula de história o professor fala: “Então, nesse dia, Napoleão invade …
A forma verbal “invade”, que é presente, não indica que naquele momento Napoleão está invadindo algum lugar. Na frase, o tempo presente do verbo “invadir” faz remissão a um fato que ocorreu no passado e traz esse passado mais para perto.

Concluímos, então, que os tempos verbais têm outros valores além dos específicos.

Tomemos o futuro do presente como ele aparece nos “Dez mandamentos” bíblicos:

Amarás a Deus sobre todas as coisas
Não tomarás seu santo nome em vão
Guardarás os domingos e feriados
Honrarás pai e mãe
Não matarás
Não pecarás contra a castidade
Não furtarás ….

“Não furtarás”, ao pé da letra, significaria que é proibido furtar no futuro, apenas no futuro, o que abre a possibilidade de entender que o ato é perfeitamente aceitável no presente. Mas, na verdade, “não furtarás”, que é futuro, tem nesse caso o valor de imperativo e, como tal, indica que é proibido furtar em qualquer tempo.

Ao analisar um tempo verbal não se esqueça de considerar que ele pode indicar seu valor específico ou um valor paralelo (aspecto verbal), ou seja, um valor decorrente de seu uso no idioma.

Conjugação Verbal
Grafia dos verbos “querer” e “por”

Eu pus a carta no correio.
A ferida não cicatrizou e ainda tem pus.

Como escrevemos o “pus” do verbo pôr e o “pus” relativo a ferida?

O “Nossa Língua Portuguesa” fez essas perguntas às pessoas na rua. A maioria acertou. O “pus” da ferida é com “s; o”pus” do verbo, também.
Não existe “pus” com “z”, seja verbo seja substantivo. Para esses casos deve-se esquecer a letra “s”.

Pus, puser, puseram, pusesse

Todas essas palavras são com “s”.

Quis, quiser, quisesse, quiseram, quisemos
depuseram, propuseram, impuseram, repuseram, sobrepuseram, decompuseram

Todas as formas dos verbos “querer”, “pôr” e derivados devem ser grafados também com “s”.

Conjugação verbal
O verbo “ter” e derivados

É difícil alguém errar a conjugação do verbo “ter”, tanto no presente, no passado ou no futuro. Mas, quando se trata de conjugar os verbos derivados de “ter”, os verbos compostos, já não há tanta facilidade. Na rua as pessoas comprovam isso. Foi proposta a seguinte questão:
Quais as formas corretas?

“Se a máquina reter o cartão” ou…
” Se a máquina retiver o cartão”?

A maioria errou. A resposta correta seria

“Se a máquina retiver o cartão”.

O verbo “reter” é um dos tantos filhos da família do verbo”ter“:”deter“,”reter“,”entreter“, “obter“, “conter“, “abster” etc.
Logo:

eu tenho
eu retenho
eu mantenho
eu detenho
eu obtenho
eu contenho

No futuro do subjuntivo é a mesma coisa: “Quando eu tiver“, “Se o goleiro tiver sorte”. E não “Quando eu “ter” “, “Se o goleiro “ter” sorte.” Assim,

Se a máquina retiver o cartão
Se você mantiver a calma
Se a mãe entretiver a criança
Se os deputados se abstiverem de votar

Para a conjugação dos verbos derivados do verbo “ter” o raciocínio é simples. Apóie-se no verbo “ter”, na primeira pessoa do singular do presente do indicativo: Eu tenho.

Eu detenho, eu mantenho etc…

Depois é só seguir essa linha de conjugação.

Conjugação verbal
O verbo “vir” e derivados

Você diria

“A polícia interviu” ou
“A polícia interveio”?

O forma correta é “A polícia interveio“. O verbo “intervir” deriva doverbo”vir“. No presente do indicativo a conjugação do verbo “vir” é:

Eu venho
Tu vens
Ele vem

Como o verbo “intervir” é derivado, sua conjugação é feita a partir do verbo “vir”.

Eu intervenho
Tu intervéns
Ele intervém

O gramático e professor Napoleão Mendes de Almeida reforça a tese afirmando: “A conjugação dos verbos compostos deve seguir a conjugação dos verbos simples”. Esse é o caso do verbo “deter”, que procede de “ter”. A pessoa não deve dizer “Ele “deteu”, mas “ele deteve

Assim, deve-se dizer:

“Se a polícia intervier“(como “vier”), e não “se a polícia intervir.
“Eu só comprarei se o preço convier“, e não “se o preço “convir”.
“Eu comprei porque o preço conveio“, e não “porque o preço conviu”.

Para conjugar verbos como “intervir“, “convir“, “provir“, etc., devemos nos basear sempre no verbo “vir”. Ele é a base de toda a família.

 

Conjucgação verbal
Verbos terminados em “-iar”

O saudoso Adoniran Barbosa cantava uma canção em que dizia:

É que de um relógio pro outro as hora vareia.

Ele tinha o jeitão dele, “as hora vareia“, com uma linguagem bem popular, perfeitamente adequada ao conteúdo de suas letras.

No padrão formal da língua, no entanto, “as hora” não “vareia“, mas “as horas variam”.

A hora varia
As horas variam

O verbo “variar” termina em “- iar” e é regular, ou seja, segue um determinado modelo, um determinado paradigma, como estes exemplos:

anunciar – anuncia
denunciar – denuncia
reverenciar – reverencia
policiar – policia

E o verbo “incendiar“, como fica? Será que está certa a frase “Você incendia meu coração”? Vejamos a letra da canção “Você pra mim”, gravada por Fernanda Abreu:

… Um segredo inviolável
de uma paixão inflamável
mas que nunca incendeia
nem em noite de lua cheia…

Essa é a forma correta, “incendeia“, do verbo “incendiar“, que não é regular, não segue a conjugação padrão. Vamos a mais alguns exemplos de verbos irregulares terminados em “-iar”:

mediar – medeia
ansiar – anseia
remediar – remedeia
incendiar – incendeia
odiar – odeia

Uma maneira de lembrar esses verbos é recorrer ao nome “Mario”: As letras iniciais das cinco palavrinhas formam a palavra “Mario“: “mediar”, “ansiar”, “remediar”,”incendiar” e “odiar”. É um pequeno truque para facilitar a memorização desses verbos irregulares.

Indicativo
Futuro do presente do indicativo: Expressão de vontade, desejo

Você sabe o que é uma frase volitiva? Frase volitiva é aquela que expressa vontade, desejo. A idéia de querer, de desejar, às vezes vem expressa de uma forma sutil. Veja a letra da canção “A cura”, gravada por Lulu Santos:

Existirá
em todo porto tremulará a velha bandeira da vida
acenderá
todo o farol iluminará uma ponta de esperança…

Você notou que a letra traz um tempo verbal, o futuro do presente, que não se usa muito no dia-a-dia, no Brasil. Não dizemos “amanhã eu farei”, mas antes “amanhã eu vou fazer”. Justamente pelo fato de não ser muito usado, o futuro do presente reveste-se de um caráter mais formal. A canção de Lulu tem um valor volitivo. No fundo, o que o artista está expressando é o desejo de que algumas coisas aconteçam.

Portanto o futuro, além de todos os seus outros valores, pode expressar desejo, como pudemos constatar na letra de Lulu Santos.

Indicativo
Uso do pretérito mais-que-perfeito

Todo mundo estudou, na escola primária e no primeiro grau, os tempos verbais (presente, passado e futuro). O passado, ou pretérito, se divide em pretérito imperfeito, pretérito perfeito e pretérito mais-que-perfeito.

Por que esses nomes?

O tempo pretérito mais-que-perfeito não tem esse nome porque é mais perfeito, porque é perfeitíssimo. Vejamos um exemplo:

Quando o árbitro apitou, a bola já entrara.

Esse “entrara” é o pretérito mais-que-perfeito. Significa “tinha” ou “havia entrado”. Quando o árbitro apitou ( pretérito perfeito ), a bola já tinha, já havia entrado, a bola entrara (pretérito mais-que-perfeito).
O pretérito perfeito indica um momento determinado do passado:”…o árbitro apitou …”.
O pretérito mais-que-perfeito indica um momento antes do pretérito perfeito: “… a bola já entrara.”

Uma letra de Gilberto Gil ilustra bem o caso desse tempo verbal, “Super-Homem – A Canção”.

… quem dera, pudesse todo homem compreender
Oh! Mãe, quem dera…
Minha porção mulher que até então se resguardara

“…tinha, havia se resguardado…”. Esse fato é anterior a outro. Na seqüência, a letra diz “…quem dera…”. “Dera” é, também, pretérito mais-que-perfeito, usado com outro valor.
É necessário lembrar que os tempos verbais podem ser usados no lugar de outro, fora de seu uso comum. Ex:

como se fora/ como se fosse

“Fora” é pretérito mais-que-perfeito, “fosse” é imperfeito do subjuntivo.
“Quem dera” é equivalente a “eu gostaria, tomara”. No entanto, ao pé da letra, “dera” é mais-que-perfeito, mais velho que o perfeito, fato ocorrido antes de outro.

Gerúndio

O gerúndio é uma das formas nominais do verbo. Por que “formas nominais”? Porque, nessas formas, o verbo pode em certas situações atuar como nome (substantivo, adjetivo ou advérbio).

O gerúndio, aquela forma que termina em “-ndo” (falando, bebendo, partindo, correndo etc), pode ser usado com valor de adjetivo.
Por exemplo:

água fervendo
(água que ferve)

O gerúndio é usado basicamente para transmitir a idéia de processo, de algo em curso, de algo que dura. O brasileiro exagera no uso do gerúndio, talvez por influência da língua inglesa. Aliás, está na moda uma construção nada elegante: “O senhor poderia estar enviando um fax para nós amanhã”. Por que não dizer “O senhor pode enviar um fax para nós amanhã” ? Há exagero nessa combinação do gerúndio a dois verbos; trata-se de um cacoete esquisito. Em Portugal não se ouve esse tipo de construção. O mesmo o gerúndio não é tão corrente como aqui. Lá, em vez de “Estou correndo”, diz-se “Estou a correr”.

Vamos a uma canção de Gonzaguinha, “Explode coração”, em que ele usa o gerúndio de forma extremamente contundente e interessante:

… Eu quero mais é me abrir
e que essa vida entre assim
como se fosse o sol
desvirginando a madrugada
quero sentir a dor dessa manhã
nascendo, rompendo, rasgando
tomando meu corpo e então
eu chorando, sofrendo
gostando, adorando, gritando
feito louca alucinada e criança
eu quero meu amor se derramando
não dá mais pra segurar
explode coração!.

Você viu na letra da canção os versos “Como se fosse o sol / Desvirginando a madrugada”. Em Portugal seria “Como se fosse o sol / A desvirginar a madrugada”. O gerúndio sugere processo de execução: o sol durante o processo de desvirginar. Isso acontece também com os outros verbos no gerúndio usados por Gonzaguinha: “nascendo“, “rompendo“, “rasgando“, “tomando“,”chorando“, “sofrendo“, “gostando“, “adorando“, “gritando“, “derramando“.

O particípio
“entregue” ou “entregado”

Você lembra o que é particípio? São formas como “falado”, “beijado”, “bebido”, “esquecido”…. Há verbos, muitos verbos, que têm dois particípios. Na hora de escolherem entre um e outro, as pessoas comumente ficam em dúvida. Dois exemplos: o verbo “salvar” tem dois particípios, “salvo” e “salvado”. O verbo “entregar” também: “entregado” e “entregue”.

O “Nossa Língua Portuguesa” foi às ruas perguntar qual a forma correta :

“Eu havia entregado o pacote” ou “Eu havia entregue o pacote”?

Das oito pessoas entrevistadas, quatro acertaram: “Eu havia entregado o pacote”. Este é o que as gramáticas chamam de particípio longo, regular, que termina em “-ado” ou “-ido” . O particípio longo é usado quando o verbo auxiliar é “ter” ou “haver”. Os particípios curtos, irregulares, como “salvo” e “entregue”, são usados quando o verbo auxiliar é “ser” ou “estar”. Portanto:

Particípio longo
Eu havia entregadoo pacote.

O árbitrotinha expulsadoo jogador.
Ele foi condecorado por ter salvado a moça.

Particípio curto
O pacote foi entregue.

O jogador foi expulso.
A moça foi salva, e isso lhe valeu uma condecoração.

Claro que essa regra vale apenas para verbos que têm dois particípios. Nos verbos com um único particípio, não há escolha. O verbo “fazer”, por exemplo, tem um só particípio.

Não se diz “Eu tinha fazido a comida”, e sim “eu tinha feito a comida”.

Cuidado com o verbo “chegar”: apesar de muitos dizerem “Eu tinha chego“, na língua culta o particípio desse verbo é “chegado”. Em situações formais, diga e escreva sempre “Eu tinha chegado“.

Particípio
“Cozido” e “cozinhado”

Eu quero te provar sem
medo e sem amor, quero te provar.
Eu quero te provar
cozida a vapor, quero te provar…

Você notou o uso da palavra “cozida” na letra da canção “Garota nacional”, do Skank. Nos programas de culinária pela TV, diz-se com freqüência que tal prato foi cozinhado no vapor. “Cozinhado” é o particípio de “cozinhar“: “O peixe foi cozinhado a vapor”.

Quase não se usa essa forma no dia-a-dia. O que se diz mesmo é “O peixe foi cozido“, com o verbo “cozer”. Mas podemos grafar essa palavra também com “s”, com o sentido de costurar. Temos, portanto, “cozer” e “coser”.

cozer = cozinhar
coser = costurar
cozida = particípio de cozer
cozinhada = particípio de cozinhar

O pessoal do Skank usa “cozida a vapor”, com “z”. Corretíssimo. “Cozida”, particípio de “cozer”. Portanto “cozida” ou “cozinhada a vapor”. Sempre com “z”.

Formação do futuro do subjuntivo

Você lembra que tempo é o futuro do subjuntivo? O texto abaixo pode ajudá-lo a lembrar.

Se pintar bem produzida
vou ficar muito feliz da vida
nada de saia comprida
vou ficar muito feliz da vida
vou ficar muito feliz da vida.
Se trouxer uma boa comida
vou ficar muito feliz da vida
e a minha bebida preferida
vou ficar muito feliz da vida
.

Nesse trecho, retirado de “Feliz da vida”, de Edu Nobre, temos dois exemplos de verbos conjugados no futuro do subjuntivo: “Se pintar bem produzida…” e “Se trouxer uma boa comida…”. Tanto”pintar” quanto “trouxer” estão no futuro do subjuntivo.

Mas há um aspecto importante a ressaltar: o verbo “pintar”, por ser regular, apresenta a mesma forma tanto para o infinitivo quanto para a primeira e a terceira pessoa do singular do futuro do subjuntivo:

Infinitivo: pintar
1ª p. do sing. do futuro do subj.: se eu pintar
3ª p. do sing. do futuro do subj.: se você pintar

Já o verbo “trazer” é um verbo irregular. Não se diz “se você trazer“, e sim “se você trouxer“.

Como fazer para não cair na armadilha de confundir infinitivo e futuro? Basta lembrar a origem do futuro do subjuntivo. Pegue a terceira pessoa do plural do pretérito perfeito, do passado:

Ontem eles fizeram.
Ontem eles viram.
Ontem eles foram.
Ontem eles vieram.

Tire as duas últimas letras, “-am”, e pronto: está formado o começo do futuro do subjuntivo.

trouxeramam = trouxer

Se eu trouxer
Quando eu trouxer
Se ele trouxer
Quando ele trouxer

Isso vale para todos os verbos.

fizeram am= fizer
viram – am= vir
foram – am= for

Subjuntivo
Verbo ser / estar – Seja / Esteja

Muitas pessoas têm dúvida sobre o uso das formas “seja” e “esteja“. Há quem as substitua por “seje” ou “esteje“… Isso é explicável porque a terminação “-e” aparece com freqüência no presente do subjuntivo. Esse é o tempo verbal que usamos em frases como “ela quer que eu fale…”, “não que eu não pense”, “ele quer que eu beba…”, “ela quer que eu permita…”.

Há um esquema simples que podemos utilizar na conjugação desse tempo:

Verbos terminados em “ar” – a conjugação termina em “e“.
Verbo falar – “Ela quer que eu fale…”

Verbos terminados em “er” e “ir” – a conjugação termina em “a“.
Verbo fazer – “Ela quer que eu faça…”
Verbo permitir – “Ela quer que eu permita…”

No caso de “seja”, trata-se do presente do subjuntivo do verbo “ser”. Lulu Santos utilizou a expressão na canção “Assim Caminha a Humanidade”:

Ainda vai levar um tempo
Pra fechar o que feriu por dentro
Natural que seja assim…

O grupo Barão Vermelho também utiliza a expressão na canção “O Poeta Está Vivo”:

Se você não pode ser forte
Seja pelo menos humana…

Nas duas canções a flexão no subjuntivo é feita corretamente, já que os verbos terminados em “er” levam a vogal básica “a” no presente do subjuntivo. Mas e o verbo “estar”? O certo, pela regra, é que a vogal básica seja “e“, mas isso não acontece. O verbo “estar” é uma exceção. A frase correta, quando usamos o verbo “estar” no presente do subjuntivo, é “ela quer que eu esteja…”, e não “esteje…”
Então não esqueça:

Verbo ser – seja
Verbo estar – esteja

Presente do subjuntivo
“que eu faça”, “que eu fale”

Na linguagem do dia-a-dia no Brasil é comum ouvir frases como estas:

Você quer que eu compro?
Você quer que eu sirvo?
Você quer que eu faço?

Isso no padrão formal da língua é inaceitável, e a razão é muito simples. Quando alguém diz “Você quer que eu…”, o ato que vem expresso em seguida, representado por um verbo, ainda não aconteceu, é hipotético.

Alguém está lhe perguntando se você quer algo e esse algo depende de você. Portanto o modo aí empregado é o da dúvida, da suposição, da hipótese, e é esse o valor do subjuntivo. Logo o correto seria dizer:

Você quer que eu compre?
Você quer que eu sirva?
Você quer que eu faça?

A canção “Pra que discutir com madame”, de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida, no programa interpretada por Moraes Moreira e Pepeu Gomes, ilustra muito bem o bom uso do tempo subjuntivo.

… Madame não gosta que ninguém sambe…

O que se diz é que “madame não gosta que ninguém sambe” agora ou no futuro, sob qualquer hipótese.

É importante saber que o presente do subjuntivo tem terminações fixas.

  • Para os verbos que terminam em “ar” ( falar, pensar, sambar, andar, cantar.), a vogal temática é “e“. Portanto as construções corretas seriam “que eu fale“, “que eu pense“, “que eu sambe” etc.

  • Para os verbos terminados em “er” e “ir” ( correr, beber, dormir, dirigir.), a vogal temática é “a. Logo deve-se escrever “que eu corra“, “que eu beba“, “que eu durma“, “que eu dirija” etc.

Observe-se ainda que a vogal temática se mantém em todas as pessoas, da primeira à última.

que eu sambe
que tu sambes

que ele sambe
que nós sambemos
que vós sambeis
que eles sambem

A exceção fica por conta do verbo “estar”, que termina em “ar”, mas faz o presente do subjuntivo com a vogal temática “a”: “Ela quer que eu esteja“( nunca “eu esteje” ). Nesse caso, a vogal temática “a” permanece até o fim:

que eu esteja
que tu estejas

que ele esteja etc.

Verbos defectivos
“reaver”

Um dos verbos mais difíceis de usar é o verbo”reaver“, que significa possuir outra vez, recuperar. O “Nossa Língua Portuguesa” foi às ruas fazer as seguintes perguntas:

“Eu reavi o dinheiro” ou “Eu reouve o dinheiro”?
“Ele reaveu” ou “Ele reouve”?
“Se eu reaver” ou “Se eu reouver”?
“Eles reaveram” ou “Eles reouveram”?

As respostas são absolutamente desencontradas, e o motivo é simples. Overbo”reaver“é defectivo, sua conjugação é absolutamente irregular.

O presente do indicativo desse verbo é incompleto, havendo apenas duas formas: nós reavemos, vós reaveis. Como as demais formas não existem, é aconselhável usar sinônimos como o verbo “recuperar”.

Já no pretérito perfeito existem todas as formas (aliás, não existem verbos sem o pretérito perfeito). Se “reaver” fosse verbo regular, poderíamos dizer “eu reavi“. Como é irregular, apresenta-se assim:

Eu reouve

Nós reouvemos

Tu reouveste

Vós reouvestes

Ele reouve

Eles reouveram

A 2ª pessoa do singular do pretérito perfeito gera a raiz de todos os tempos derivados. Basta tirar as três últimas letras ( reouveste – “ste” ) para chegar à raiz “reouve“.

reouve + “sse” = reouvesse ( Imperfeito do Subjuntivo)

reouve + “ra” = reouvera ( Mais-que-perfeito)

reouve + “r” = reouver ( Futuro do Subjuntivo )

 

 

 

 

Verbos pronominais
“orgulhar-se”,”apaixonar-se”, “confraternizar”

O mineiro tem um hábito muito particular em relação ao verbo com o pronome, o chamado verbo pronominal. Há uma canção que, apesar de não ser de um mineiro, ilustra o caso: “Cordão”, de Chico Buarque.

… ninguém , ninguém vai me sujeitar
Arrancar do peito a minha paixão
Eu não, eu não vou desesperar…

Não é comum ouvirmos os paulistas dizer “naquele momento eu desesperei”. A construção mais corrente é “naquele momento eu me desesperei”, “desesperei-me”.

Os mineiros, no entanto, têm o hábito de “comer” o pronome oblíquo. Em entrevista, Fernando Brant diz:

“Eu formei em direito, mas advogado eu não sou. Freqüentei a faculdade, formei …”.

Conforme o padrão culto da língua, o correto seria “Eu me formei em direito…“.

É bom lembrar que são pronominais os verbos a seguir:

orgulhar-se
apaixonar-se
dignar-se
arrepender-se
queixar-se

Por outro lado, não são pronominais os verbos abaixo, que, normalmente, são tratados como tal:

confraternizar
simpatizar

É errado dizer “Os atletas se confraternizam”. Esse verbo não é pronominal.
Do mesmo modo, “Eu me simpatizo com ela” não é bom português.

Não utilize o pronome quando o verbo não o pedir. Na dúvida, consulte um bom dicionário e mesmo um dicionário de regência verbal.

“A gente sofre de teimoso”

Um belo dia, na aula de análise sintática, você aprende que existe adjunto adverbial de causa, e isso se torna algo inesquecível em sua vida. Veja o texto abaixo, extraído da música “Pedacinhos”, de Guilherme Arantes.

afinal, a gente sofre de teimoso
quando esquece do prazer
adeus também foi feito pra se dizer
bye, bye, so long, farewel

“A gente sofre de teimoso”. Por que “a gente sofre”? Por causa da teimosia. Se você um dia procurar num dicionário os valores da preposição “de”, você descobrirá uma imensa lista de possibilidades. Um dos valores é justamente o de causa.

A letra de uma canção de Gilberto Gil e Chico Buarque diz:

De muito gorda, a porca já não anda.

O que quer dizer isso? Que a porca não anda porque está muito gorda. Também nesse exemplo a preposição “de” introduz idéia de causa. A expressão por ela introduzida modifica o verbo e, portanto, tem valor de adjunto adverbial de causa.

Artigo antes de nome de cidade

É correto usar artigo antes do nome de cidades? Será que a expressão “no Recife”, por exemplo, está correta?

Está, sim. Há muitos registros dessa construção, a começar pelos poetas pernambucanos de nomeada. Manuel Bandeira, por exemplo, escreveu um poema intitulado “Evocação do Recife”. João Cabral de Melo Neto, sempre que se refere à capital do estado de Pernanbuco, usa o artigo. O dicionário Aurélio também dá “recifense” como “natural do Recife, habitante do Recife”. Portanto não há nenhum problema no que diz respeito ao uso do artigo com a palavra “Recife”, capital do querido estado de Pernambuco.

É bom lembrar que em português, normalmente, os nomes de cidade são usados sem artigos, sobretudo no português do Brasil. As pessoas dizem que moram:

em São Paulo
em Campinas
em Santos
em Juiz de Fora
em Governador Valadares
em Manaus

No entanto há algumas poucas exceções em que se pede o artigo, e “Recife” é um deles. Outros nomes que são antecedidos por artigo são “Rio de Janeiro”, “Cairo”, “Porto” – cidade do Norte de Portugal.

Ele mora no Rio de Janeiro.
Ele mora no Cairo.
Ele mora no Porto.

Inversão da ordem dos termos numa oração

De você eu gosto.
Eu gosto de você.

As palavras são as mesmas, só a ordem se altera. Será que a primeira frase tem exatamente o mesmo sentido da segunda? Podemos convir que o sentido seja o mesmo, mas sabemos que ninguém coloca as palavras numa certa ordem por acaso.

Quando alguém diz “De você eu gosto”, a ênfase recai no sintagma “de você“. Essa inversão da ordem gera mudança de foco, mudança de luz. Note que “de você eu gosto” é diferente de “eu gosto de você” no que diz respeito àquilo que está sendo destacado: de você eu gosto, dela não.
No português a ordem das palavras numa frase é relativamente flexível. A alteração da ordem tem normalmente algum efeito estilístico.

Tomemos um exemplo, extraído da canção “Zé Ninguém”, gravada pelo Biquíni Cavadão:

… Quem foi que disse que a justiça tarda, mas não falha?
Que, se eu não for um bom menino, Deus vai castigar!
Os dias passam lentos
aos meses seguem os aumentos
cada dia eu levo um tiro que sai pela culatra
eu não sou ministro, eu não sou magnata
eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém
aqui embaixo, as leis são diferentes…

Você notou a frase “aos meses seguem os aumentos” ( aos = a + os a = preposição )?

Nessa frase houve uma inversão na ordem, e é possível rastrear a intenção que a gerou. Observe antes, porém, que, para que não houvesse ambigüidade, o letrista preposicionou o objeto direto “os meses”. Do contrário, este poderia passar como sujeito da oração (como identificaríamos claramente o sujeito na construção “os meses seguem os aumentos”?). O objeto direto preposicionado é um recurso para destacar, sem margem a dúvidas, o sujeito da oração.

Mas qual teria sido a intenção de inverter a ordem dos termos na oração? Na ordem direta seria “os aumentos seguem os meses”, ou seja, os meses vão correndo e, com eles, os aumentos. Nessa seqüência, não haveria rima entre os termos “lentos” e “aumentos”. Alterando a ordem das palavras, o compositor obteve um efeito expressivo, a rima. Trata-se de um recurso estilístico perfeitamente possível. É a estrutura frasal se flexibilizando para atender àquilo que efetivamente se quer dizer.

Posição do pronome em locuções verbais

Discute-se na letra da música ” Eu sei que vou te amar “, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes,
a melhor colocação do pronome “te” no trecho:

Eu sei que vou te amar
Por toda minha vida eu vou te amar …

Há mais de uma possibilidade de colocação pronominal nesse caso. O pronome poderia vir após a conjunção integrante “que“, já que essa conjunção é palavra atrativa.

Eu sei que te vou amar.

A outra forma é colocar o pronome “te” após o verbo principal.

Eu sei que vou amar-te.

No entanto temos de convir que seria um tanto estranho Tom Jobim e Vinícius cantarem:

Eu sei que te vou amar
Por toda a minha vida
Eu sei que vou amar-te

O verso, como se consagrou, traz a opção mais típica da língua portuguesa falada no Brasil. Em locuções verbais, comumente inserimos o pronome entre os verbos. Essa construção parece a um brasileiro mais eufônica. Ela soaria melhor que as demais. Todas as três, no entanto, são corretas.

Próclise e ênclise
“me disseram que…” ou “disseram-me que…”?

Este assunto foi tratado mais de uma vez no programa: a colocação dos pronomes oblíquos átonos em relação aos verbos.
Pronomes oblíquos átonos:

ME – TE – SE – LHE – LHES – O – A – OS – AS – NOS – VOS

No Brasil, muitas vezes o professor diz ao aluno: “Não é possível começar a frase com o pronome me“. E, se o aluno escreve na redação “Me disseram que…”, é repreendido pelo professor, que nem sempre o instrui sobre a razão de o pronome não poder iniciar a oração.

Ocorre que a língua portuguesa “oficial”, isto é, o português de Portugal, não aceita o pronome no início da frase. Eles dizem “Informaram-me…”. Essa colocação pronominal diverge muito de nossa maneira de falar no Brasil. Temos nosso modo de usar o pronome, e não há por que lutar contra isso. É como na canção “Vento Ventania”, do grupo Biquíni Cavadão:

Vento, ventania
me leve para as bordas do céu
pois vou puxar as barbas de Deus.
Vento, ventania
me leve pra onde nasce a chuva
pra lá de onde o vento faz a curva
me deixe cavalgar nos seus
desatinos, nas revoadas, redemoinhos…

O mesmo grupo tem outra canção que também é um bom exemplo da nossa maneira de colocar os pronomes na frase. A canção é “Timidez”.

Toda vez que te olho
crio um romance.
Te persigo mudo
todos os instantes.
Falo pouco, pois não
sou de dar indiretas.
Me arrependo do que
digo em frases incertas…

Noportuguês de Portugal e no português culto, isso não poderia ser assim. Deveria ser “Leve-me“, “Deixe-me“, “Persigo-te“,”Arrependo-me” e assim por diante.

Portanto usar os pronomes, no começo da frase, é oficialmente errado. No cotidiano, com os amigos, na vida diária, podemos falar à nossa maneira. Mas numa prova de português, num vestibular, num concurso, devemos usar o pronome sempre depois do verbo.

“obrigado” e “eu mesmo”

“Eu mesma fiz essa bolsa.” Está correta essa construção? Sim, desde que esteja sendo observado o sexo de quem fala.

Se é um homem quem fala, então este deve dizer “eu mesmo“; se é mulher, “eu mesma“.

Você, referindo-se a uma mulher, deve dizer “você mesma“, “ela mesma“.

No plural e havendo pelo menos um homem, deve-se dizer “nós mesmos”; havendo só mulheres, “nós mesmas”.

A concordância deve ser observada também nas fórmulas de agradecimento. O homem diz “obrigado“; a mulher, “obrigada“.

“é proibido” “é proibida”

Uma pessoa vai a um edifício comercial, a um ambiente mais formal, e vê ali uma tabuleta:

É proibido a entrada.

Pouco depois, ao entrar no prédio ao lado, a pessoa depara-se com outra tabuleta:

É proibida a entrada.

Uma confusão, não é? O programa foi às ruas consultar algumas pessoas e perguntou quais eram as formas corretas:

“Não é permitido a entrada” ou “Não é permitida a entrada”?
“É proibido a entrada” ou “É proibida a entrada”?

Houve empate no número de respostas certas e erradas. Vamos a alguns exemplos para esclarecer essa questão:

A sopa é boa.
Sopa é bom.

A cerveja é boa.
Cerveja é bom.

Quando se generaliza, quando não se determina, não se faz a concordância; usa-se o masculino com valor genérico, com valor neutro. Portanto:

Sopa é bom. / É bom sopa.
Cerveja é bom. / É bom cerveja.
Entrada é proibido. / É proibido entrada.
Entrada não é permitido. / Não é permitido entrada.

Se não existe um artigo ou uma preposição antes de “entrada”, se não há nenhum determinante, o particípio passado dos verbos “proibir” e permitir” deve ficar no masculino. Mas, se houver algum determinante, o verbo deve, então, concordar com a palavra “entrada”. Veja as formas corretas:

É proibido entrada.
É proibida a entrada.
Não é permitido entrada.
Não é permitida a entrada.

“meio” ou “meia”?

“Ela está meio cansada” ou “ela está meia cansada”? A letra da música “Aquilo”, de Lulu Santos, nos dá uma dica:

Outra vez a mesma história
volta sempre a acontecer
vai passar de hora em hora
depois que ligarem a TV.
Vejo as sobras coloridas
sussurrando em sensurround
deslizando na avenida
meio alheio ao temporal.

Diz a letra: “…deslizando na avenida meio alheio ao temporal…”. Se fosse uma mulher, em vez de “alheio” teríamos alheia. Mas deveríamos também substituir a palavra “meio” por“meia”?
Para fazer o teste, utilize “muito” no lugar de “meio”:

Meio alheia –> muito alheia
Meio nervosa –> muito nervosa
Meio cansada –> muito cansada

Temos aqui uma palavra que modifica um adjetivo: o advérbio.

Advérbios não variam.

É bom lembrar que em clássicos da literatura brasileira há registros desse termo usado de forma flexionada. Assim, há registros de “meios cansados”, “meia doce”, por exemplo. Na língua moderna, isso tende a não ocorrer em textos escritos. As bancas que organizam os vestibulares das escolas mais importantes do Brasil reconhecem “meio”como advérbio, ou seja, como palavra invariável.

“40% dos eleitores preferiram ou preferiu?”

A concordância verbal que envolve porcentagem deixa muitas pessoas em dúvida. Para ilustrar isso, o “Nossa Língua Portuguesa” foi às ruas e formulou algumas perguntas ao público.

Como se deve dizer: “Pedro ou Paulo será o próximo presidente da República” ou “Pedro ou Paulo serão o próximo Presidente da República”?

A maioria das pessoas acertou. “Pedro ou Paulo será …”. Somente um dos dois será o próximo presidente da República. O “ou” que aparece na oração é excludente, indica a exclusão de Pedro ou de Paulo da cadeira de Presidente da República. Logo, o verbo fica no singular.

Contudo, se alguém perguntar sobre sua preferência musical, a resposta poderá ser: “Tom ou Caetano me agradam”. O “ou” presente nessa oração não é excludente; logo o verbo assume o plural.

Outra pergunta:

“40% dos eleitores preferiram” ou “40% dos eleitores preferiu“?

A expressão que determina o percentual está no plural ( “eleitores” ) e então não há outra opção. O determinante também pode estar no singular, como na questão seguinte proposta aos telespectadores:

“40% do eleitorado preferiu” ou “40% do eleitorado preferiram”?

Muitos acertaram. O termo que se segue ao percentual é singular; logo o verbo também permanece no singular. A forma correta é “40% do eleitorado preferiu“. Mas e se não houver determinante acompanhando a porcentagem?

“40% preferiu” ou “40% preferiram”?

Como não há nada após a expressão percentual, vale o número 40, que é plural. Se fosse um número inferior a 2, então o verbo ficaria no singular.

40% preferiram
1% preferiu
1,8% preferiu

Concordância com pronome
relativo e expressões expletivas

Muitos dizem “não foi eu” e supõem que esse “foi” vale em qualquer caso. Não é bem assim.

Para ilustrar essa questão, tomemos um exemplo retirado da música “Foi Deus que fez você”, de Luiz Ramalho.

Foi Deus que fez o céu
(…)
Foi Deus que fez você
Foi Deus…

“Foi Deus que fez”. Por que “foi”? Porque Deus é 3ª pessoa, Deus é igual a “ele” e, portanto, “ele foi”.
Mas cuidado: não é cabível dizer “Eu foi“. Logo, “não foi eu” está errado. O correto é:

Não fui eu
Não fomos nós

O verbo que vem depois da palavra “que” também deve concordar com a palavra antecedente. Portanto deve-se dizer “Fui eu que fiz” ( eu fui, eu fiz), “Fomos nós que fizemos”, “Foram eles que fizeram”.

Outro caso que costuma causar embaraço é o da expressão expletiva “é que“, expressão fixa. A canção “Só nós dois”, de Joaquim Pimentel, faz uso dela mais de uma vez.

Só nós dois é que sabemos
o quanto nos queremos bem
Só nós dois é que sabemos
Só nós dois e mais ninguém…

A expressão “é que” é inalterável. Nunca diga “São nessas horas que a gente percebe”, mas antes:

Nessas horas é que a gente percebe
É nessas horas que a gente percebe

Trata-se de uma expressão de realce, que pode também ser eliminada.
Veja os exemplos:

Só nós dois é que sabemos/Só nós dois sabemos.
É nessas horas que a gente percebe/Nessas horas a gente percebe.

A expressão “é que”, expletiva, pode ser perfeitamente eliminada sem prejuízo da estrutura frasal.

Verbo antes do sujeito
“faltaram muitos alunos hoje” ou “faltou muitos alunos hoje”?

É comum ouvirmos as pessoas dizer “Acabou as ficha”, “Sobrou quinze”, “Falta dez”. Certo dia estava escrito num jornal de grande circulação: “Chegou as tabelas do Mundial”. Erro tanto mais grave porque se trata de língua escrita, em que a concordância merece maior atenção.

Um exemplo de concordância verbal corretamente observada acha-se na canção de Paulinho da Viola “Quando bate uma saudade”.

… Vibram acordes
Surgem imagens
Soam palavras
Formam-se frases…

Nessa canção, Paulinho da Viola canta com muita clareza frases com os verbos colocados antes do sujeito, todas com a concordância perfeitamente observada. Os substantivos estão no plural, os verbos também.
Isso é difícil de ocorrer no nosso dia-a-dia. Seja como for, na linguagem oficial é fundamental estabelecer a concordância:

Acabaram as fichas.
Acabaram-se as fichas.
Sobraram quinze.
Faltam dez.
Restam vinte.
Partiram todos.

Um trecho da canção “Música Urbana”, do Capital Inicial, traz um verbo interessante que nem sempre é flexionado corretamente:

Tudo errado, mas tudo bem.
Tudo quase sempre como
eu sempre quis.
Sai da minha frente, que
agora eu quero ver.
Não me importam
os seus atos

eu não sou mais
um desesperado.
Se eu ando por
ruas quase escuras
as ruas passam

Trata-se do verbo “importar”. O letrista fez a concordância corretamente: “não me importam os seus atos”. Os atos não têm importância, portanto eles não importam. Basta fazer concordar verbo e sujeito: Atos está no plural, então o verbo também deve ficar no plural.

O verbo “fazer”
“faz dez anos que eu morava lá” ou “fazia dez anos que eu morava lá”?

O “Nossa Língua Portuguesa” fez a seguinte pergunta às pessoas na rua:

Qual a forma correta: “Vai fazer 5 semanas que ela foi embora” ou
Vão fazer 5 semanas que ela foi embora”?

De sete pessoas ouvidas, três acertaram. A forma correta é: “Vai fazer 5 semanas que ela foi embora”.

O “Nossa Língua Portuguesa” foi às ruas mais uma vez e propôs a seguinte questão:

“Faz vinte anos que estive aqui” ou “Fazem vinte anos que eu estive aqui”?

As opiniões ficaram divididas. A forma correta, porém, é:

Faz vinte anos que estive aqui.

O verbo “fazer”, quando indica tempo, não tem sujeito. Tal não ocorre com o verbo “passar”. Pode-se e deve-se dizer: “Passaram dez anos”. De fato, os anos passam. Mas não é aceita a construção “Fazem dez anos”.

Nas locuções verbais em que o verbo “fazer” é associado a outro na indicação de tempo, o verbo auxiliar também não varia: ” Já deve fazer vinte anos que ela foi embora “. Está fora de cogitação escrever “Já devem fazer vinte anos …”. Nesses casos o verbo “fazer” vem sempre no singular.

Por fim, em qualquer tempo que seja usado, o verbo “fazer”, quando indica tempo transcorrido, não deve ser flexionado:

Faz dez anos
Faz vinte dias
Faz duas horas
fazia dois meses
Fez cinco meses

Vamos a outro exemplo de concordância, tirado da canção “O Poeta Está Vivo”, com o Barão Vermelho:

Se você não pode ser forte, seja pelo menos humana.
Quando o papa e seu rebanho chegar
não tenha pena:
todo mundo é parecido quando sente dor.

A letra usa indevidamente o verbo no singular. Se “Papa e rebanho chegam”, a concordância na frase acima deveria ser antes “quando o papa e seu rebanho chegarem“.
Seria bom que ao menos na escrita a concordância verbal fosse observada.

      O verbo “fazer”
“faz vinte anos” ou “fazem vinte anos”?

Como se deve dizer: “Quando conheci sua prima, eu morava lá dez anos” ou “Quando conheci sua prima, morava lá havia dez anos”?

A dica para resolver esse dilema é simples: substitua o verbo “haver” pelo verbo “fazer”, pois eles se equivalem quando indicam tempo.

Eu morava lá fazia dez anos
Eu morava lá faz dez anos

Não há dúvida de que a primeira soa melhor. E isso porque a forma “fazia“, do pretérito imperfeito, está em harmonia com a forma “morava“, também do pretérito imperfeito.

Portanto, ao usar o verbo “haver” naquela mesma situação, ele deve estar no pretérito imperfeito:

Eu morava lá havia dez anos

Os tempos verbais devem, portanto, estar em acordo:

moro –>
moro –> faz
morava –> fazia.
morava –> havia

É assim que exige o padrão formal da língua.

O verbo “existir”
“existe pessoas” ou “existem pessoas?”?

Já comentamos várias vezes, no “Nossa Língua Portuguesa”, que no Brasil, na língua do dia-a-dia, a concordância nem sempre é respeitada. O verbo “existir” é umas principais vítimas desse desrespeito. Tomemos a letra de uma canção, “Firmamento”, gravada pelo Cidade Negra, para exemplificar o seu funcionamento:

você não sai da minha cabeça
e minha mente voa
Você não sai, não sai, não sai, não sai…
Entre o céu e o firmamento
existem mais coisas do que julga
o nosso próprio pensar
que vagam como o vento
e aquele sentimento de amor eterno
Entre o céu e o firmamento
existem mais coisas do que julga
o nosso próprio entendimento
que vagam como o vento
e aquele juramento de amor eterno.

Está corretíssima a construção “existem mais coisas”. O verbo “existir” sempre tem sujeito e, portanto, deve concordar com ele. Se o sujeito é plural, esse verbo também deve aparecer no plural:

existem coisas
existem pessoas
existem situações

Vamos ver outro verbo que nem sempre anda na linha. A canção é “O ponteiro tá subindo”, gravada pelo Camisa de Vênus:

Olhei para o relógio
e já era quase três
o que aconteceu
eu vou contar para vocês
e eu tentando entender
fazendo rock’n’roll
até o amanhecer.

Na letra do Camisa de Vênus o ponteiro pode estar subindo, subindo, mas a concordância desceu a ladeira. No verso “e já era quase três”, uma referência a horário, a concordância não foi corretamente observada. O verbo “ser”, na indicação de horário, deve concordar com o número de horas:

é uma hora
são duas horas
são três horas

Sempre é bom lembrar que a concordância com meio-dia, meia-noite e uma hora é feita sempre no singular:

é meio-dia
é meia-noite
é meio-dia e quarenta e sete
é uma e quinze

Mais alguns exemplos:

Duas e cinco = são duas e cinco
Uma e cinco = é uma e cinco
Cinco para as duas = são cinco para as duas / faltam cinco para as duas

O verbo “haver”
“haviam vários trabalhadores” ou “havia vários trabalhadores”?

“Haja paciência!” Todos já ouvimos essa expressão. Esse “haja” é o verbo “haver” no presente do subjuntivo. Esse verbo talvez seja o mais desconhecido quanto às suas flexões. Muitas vezes é usado sem que o usuário tenha consciência de que o está usando.

Estive aqui dez anos.

O “” presente na oração é o verbo “haver” e pode ser trocado por outro verbo: “Estive aqui faz dez anos”.

Existem deslizes típicos de quem não conhece as características do verbo “haver”. Quando se diz “Há muitas pessoas na sala”, conjuga-se o verbo “haver” na terceira pessoa do singular do presente do indicativo. Note que não foi feita a concordância do verbo “haver” com a palavra “pessoas”. Não se poderia dizer “Hão pessoas”.

O verbo “haver”, quando usado com o sentido de “existir”, fica no singular. O verbo “existir”, sim, flexiona-se normalmente:”Existem muitas pessoas na sala”.

A confusão tende a aumentar quando o verbo “haver” é usado no passado ou no futuro. Em certo trecho, a versão feita pelo conjunto “Os incríveis” da canção “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones” diz:

Não era belo, mas mesmo assim havia mil garotas a fim….

Nessa canção o verbo “haver” foi empregado com o sentido de “existir“. Logo, está correta a versão com o verbo no passado e no singular.

No Brasil, diz-se “cabe dez”, “sobrou 30”, “falta 30”. Geralmente não se faz concordância. Mas, quando não é necessário fazer, erra-se. “Houveram muitos acidentes naquela rodovia”. Essa construção está equivocada. As construções abaixo estão corretas:

Houve muitos acidentes naquela rodovia.
Haverá muitos acidentes naquela rodovia.
Houve muitos acidentes naquela rodovia.
Há vários trabalhadores filiados a essa associação.
Havia muitos trabalhadores filiados a essa associação.
Houve muitos trabalhadores filiados a essa associação.

Vale repetir:”O verbo “haver”, quando empregado com o sentido de existir, ocorrer, acontecer, fica no singular, independentemente do tempo verbal.

O verbo “ser”
“sua vida sou eu” ou “sua vida é eu”?

Volta pra casa… me traz na bagagem: tua viagem sou eu.
Novas paisagens, destino passagem: tua tatuagem sou eu.
Casa vazia, luzes acesas (só pra dar impressão)
cores e vozes, conversa animada (é só a televisão)

Na letra acima, extraída da canção “Simples de coração”, dos Engenheiros do Hawaii, lemos “tua viagem sou eu” e “tua tatuagem sou eu”.

Há pessoas que se espantam com esse tipo de concordância. Supõem que “tua viagem” pediria verbo na 3ª pessoa do singular, concordando com o sujeito: “tua viagem é…” ou “tua viagem foi…”. Por que o letrista escreveu “tua viagem sou eu”?

Porque o verbo “ser”, nesse caso, está ligando o substantivo “viagem” ao pronome pessoal “eu”. O pronome pessoal prevalece pelo simples motivo de que, em termos de concordância verbal, a pessoa prevalece sobre o que não é pessoa, sempre. Por isso, independentemente da ordem da frase, faz-se a concordância do verbo “ser” com a pessoa, como vimos na letra:

Eu sou tua viagem.
Tua viagem sou eu.
Eu sou tua tatuagem.
Tua tatuagem sou eu.

Flexão do Infinitivo

Observe essa frase:

Nós precisamos lutarmos para podermos vencermos os jogos
que vamos disputarmos, do contrário não iremos nos classificarmos.

Há algo errado aqui, não? Evidentemente se trata de um exemplo exagerado, que visa mostrar como a flexão do verbo no infinitivo nem sempre é adequada.
Na canção abaixo, “Belos e Malditos”, gravada pelo Capital Inicial, vemos uma construção com relação à qual muitos têm dúvida:

Belos e malditos
feitos para o prazer
os últimos a sair
os primeiros a morrer

Como se deve dizer: “os últimos a sair” ou “os últimos a saírem” ? “Os primeiros a morrer” ou “Os primeiros a morrerem“?

Se o infinitivo for precedido por preposição (que, no caso , é “a”) e funcionar como complemento de um substantivo, adjetivo ou verbo da oração anterior, é desnecessária a flexão:

Os veículos estão proibidos de circular.
Foram obrigados a ficar.

Vamos a outro exemplo, a canção “Há Tempos”, gravada pelo Legião Urbana:

…Tua tristeza é tão exata
e o hoje o dia é tão bonito.
Já estamos acostumados
a não termos mais nem isso…

Melhor seria “não ter”. No caso, o plural – “não termos” – serviria para enfatizar, realçar a idéia do autor. Como diz o gramático Said Ali: “a escolha da forma infinitiva depende de cogitarmos somente da ação ou do intuito ou necessidade de pormos em evidência o agente da ação”. No primeiro caso, será usado o infinitivo flexionado; no segundo, o infinitivo não flexionado.

Crase acento grave
“à francesa”

Como escrever: “Bife à parmegiana” ou “bife a parmegiana”? Ou então: “lula à provençal” ou “lula a provençal”? O caso parece enigmático especialmente porque as palavras que se seguem ao a são adjetivos, termos que não se acompanham de artigos. Sabemos que, para haver a crase, é necessária a presença da preposição a e a presença do artigo feminino a.

Ocorre que, nas construções acima, estão subentendidas as expressão à moda de, à maneira de:

Bife à moda parmegiana
Lula à moda provençal

Elas são grafadas com crase porque trazem implícita a expressão “à moda de”, locução adverbial feminina. E sabemos que as locuções adverbiais femininas costumam ser craseadas. Vejamos outros exemplos em que aparece essa forma:

Eles saíram à francesa da festa. (= Eles saíram à maneira francesa da festa.)
Eliana calçava um sapato à Luís XV. (= Eliana calçava um sapato à mode de Luís XV.)

“À francesa”, “à Luís XV”: nesses casos, as palavras moda ou maneira estão subentendidas. Assim, o a leva acento indicador de crase.

Acento grave
“à beça”, “às vezes”

Crase é uma palavra grega que significa fusão. No caso, a fusão de um “a” com outro “a”. Comumente, da preposição “a” com o artigo “a”. Assim, crase é o fenômeno da língua, o fenômeno da fusão, que é assinalado com o acento grave.

Portanto a “crase”, tecnicamente, NÃO É o nome do acento. Na verdade, o acento chama-se grave.

Atente para o verso abaixo, tirado da canção “Morro Velho”, de Milton Nascimento:

… some longe o trenzinho ao Deus-dará

Ao” seria a fusão de “a” mais “o“. Ao Deus-dará, ao acaso, ao sabor do destino. Nas expressões masculinas somam-se as vogais, em vez de fundi-las. Não há a fusão porque as vogais são diferentes. E o que aconteceria nas expressões femininas equivalentes?

Djavam responde na sua canção “Se”:

… você me diz à beça e eu nessa de horror…

A expressão ” à beça” indica intensidade. No caso, significa “você me diz muito”. Como também é uma expressão feminina, temos a mais a. Logo, fundimos as vogais iguais e chegamos ao “a” com acento grave: “à“.

Veja esta letra, da canção “A Promessa”, gravada pelos Engenheiros do Hawaii:

…Estou ligado a cabo a tudo que acaba de acontecer.
Propaganda é a alma do negócio:
no nosso peito bate um alvo muito fácil.
Mira a laser… miragem de consumo
latas e litros de paz teleguiada…

Será “a cabo” ou “à cabo” ? Observe que “cabo” é palavra masculina, que não poderia ser precedida pelo artigo “a”. Portanto “a cabo” não leva o acento indicativo de crase porque não houve nenhuma fusão.

Na mesma letra, temos as expressões “a tudo” e “a laser”. “Tudo” e “laser” também não são palavras femininas. A primeira é pronome e a segunda é substantivo masculino. Assim, não existe fusão entre preposição e artigo porque nem “tudo” nem “laser” são precedidas pelo artigo feminino a. Portanto o que os antecede é somente preposição.

E a expressão “às vezes” levaria crase? Vejamos como procederam os Engenheiros do Hawaii na canção “Às vezes nunca”:

Tô sempre escrevendo cartas que nunca vou mandar
pra amores secretos, revistas semanais e deputados federais.
Às vezes nunca sei se “às vezes” leva crase
às vezes nunca sei em que ponto acaba a frase…

Notem que a canção tem teor metalingüístico. Tematiza-se a própria indecisão em colocar crase em “às vezes”. Trata-se de expressão adverbial feminina de tempo. Ao substituirmos essa expressão por uma equivalente com palavra masculina, usamos ao em vez de às:

Faço ginástica apenas aos sábados.
Aos domingos, visito minha avó.

Portanto, na expressão “às vezes”, formada por palavra feminina (“vez”), a crase será de rigor já que ocorre a fusão entre artigo e preposição. Devemos usar o acento grave indicador de crase.
É importante prestar atenção no sentido que “vezes” possui na frase. Por exemplo:

Eu faço as vezes de médico.

Nesse caso não existe acento, já que “vezes” tem significado completamente diferente: “Eu faço o papel de médico”. “Às vezes” só leva acento nos casos em que indica tempo.

Crase em adjunto adverbial feminino

Os adjuntos adverbiais de instrumento recebem crase. Mas será que esse é também o caso de “escrever à maquina”? As expressões adverbiais femininas costumam ser grafadas com acento grave no “a” ou no “as”. São muitas as expressões. Veja algumas:

Fique à vontade.
Às vezes eu visito a minha tia.
A cidade ficou às escuras.
Vamos conversar às claras.

Expressões adverbiais femininas costumam ser grafadas com acento grave indicador de crase no “a” ou no “as“.

Quando se trata de instrumento ou meio, caso de “a máquina”, há divergências entre os gramáticos. Alguns argumentam que ninguém diz, por exemplo, que o barco é “ao remo”, e sim que o barco é “a remo”; do mesmo modo, um barco não pode ser “ao vapor”, e sim “a vapor”; não se escreve algo “ao lápis”, e sim “a lápis”. Seria coerente com isso, portanto, que não acentuássemos o “a” ou “as” das expressões femininas que indicassem instrumento. Portanto seria adequado não colocar o acento.

Outros argumentam, porém, que, se as demais expressões adverbiais femininas recebem crase, as designadoras de instrumento ou meio também devem receber.

Então o que fazer? Uma vez que não há consenso sobre essa questão, seria admissível tanto usar a crase como não usá-la em adjuntos similares a “à máquina”. Mas cuidado: esse uso facultativo só é possível em relação a adjuntos adverbiais de meio ou instrumento. Nas demais expressões adverbiais com palavras femininas, a crase é obrigatória.

“Precisando, telefone.”

Você já deve ter ouvido falar em “oração reduzida”. Observe as estruturas abaixo:

Quando você fizer tal coisa
Ao fazer tal coisa

No primeiro caso o verbo “fazer” está no futuro do subjuntivo.

No segundo, eliminamos a conjunção “quando” e não conjugamos o verbo “fazer”, deixando-o no infinitivo. Em suma, reduzimos a oração. Ela tem o mesmo valor que a outra, mas está numa forma comprimida.

Veja outro exemplo:

Precisando, telefone.

A frase acima possui duas orações. A primeira, “precisando”, pode ser desdobrada, isto é, descomprimida:

Se precisar, telefone.
Quando precisar, telefone.

Passamos a usar as conjunções “se” ou “quando” e a oração deixa de ser reduzida.

Quando usamos verbos no gerúndio ( falando, bebendo, partindo), no infinitivo ( falar, beber, partir ) ou no particípio ( falado, bebido, partido ), não se usam conjunções, como se e quando, elementos que introduzem a oração. Esta seria iniciada diretamente pelo verbo.

Veja o fragmento de uma letra de Caetano Veloso e Gilberto Gil:

No dia em que eu vim m’embora
… sentia apenas que a mala de couro que eu carregava
embora estando forrada fedia, cheirava mal…

“Estando” é gerúndio e o gerúndio estabelece a oração reduzida. Logo, nessa letra a conjunção “embora” não poderia ter sido usada com o gerúndio.
Ficaria assim:

… sentia apenas que a mala de couro que eu carregava,
embora forrada, fedia, cheirava mal…

No caso, houve uma distração. Não pode ser abonado pela norma culta.

Outro caso, em português a oração reduzida começa pelo verbo:

Muita gente fala: “Isso posto, vamos ao que interessa.”. Errado.
O correto é “Posto isso, vamos ao que interessa.”
Não se dizA questão discutida, passamos ao item seguinte“.
Diz-se “Discutida a questão, passamos ao item seguinte.”

Oração reduzida sempre começa com o verbo no gerúndio, no particípio ou no infinitivo.

Uso da vírgula

Como usar a vírgula? Seu uso está relacionado à respiração?

Não, a vírgula depende da estrutura sintática da oração. A pausa que fazemos na fala nem sempre corresponde à pausa na escrita.

O “Nossa Língua Portuguesa” interrogou pessoas na rua a propósito desse tema. Pediu-se que colocassem vírgulas no seguinte texto:

O diretor de Recursos Humanos da Empresa Brasileira de Correios
e Telégrafos declarou que não haverá demissões neste mês.

A maioria dos entrevistados acertou. Não há vírgula na frase acima, por maior que ela seja.

“O diretor de Recursos Humanos da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos” é o sujeito do verbo “declarar“. Foi ele, o diretor, que declarou.

Entre sujeito e verbo não há vírgula.

Na seqüência temos ” …que não haverá demissões neste mês”. Trata-se de objeto direto em forma de oração. Ele complementa o verbo “declarar” —declarou o quê? Que não haverá demissões.

Mas, às vezes, a vírgula pode decidir o sentido do texto. Assim, como pontuaríamos a frase abaixo?

Irás voltarás não morrerás

A pontuação depende do sentido que se quer dar:

Irás. Voltarás. Não morrerás.
Irás. Voltarás? Não. Morrerás.

A diferença entre uma e outra oração salta aos olhos, não é?

Onde, aonde
“esqueça aonde estou” ou “esqueça onde estou”

“Onde” ou “aonde”? Muitos temos essa dúvida. Nem vale a pena tentarmos esclarecê-la por meio dos textos literários, porque não é incomum que grandes escritores utilizem as expressões de modo diferente do que é pregado pela gramática normativa. A diferença entre “onde” e “aonde” é relativamente recente.

Preste atenção no trecho desta canção, “Domingo”, gravada pelos Titãs:

… não é Sexta-Feira Santa
nem um outro feriado
e antes que eu esqueça aonde estou
antes que eu esqueça aonde estou
aonde estou com a cabeça?

“Aonde eu estou” ou “onde estou”? A resposta a essa pergunta seria: “Estou em tal lugar”, sem a preposição “a“. As gramáticas ensinam que, não havendo a preposição “a”, não há motivo para usar “aonde”. Assim, a forma correta na letra da canção seria:

… e antes que eu esqueça onde estou
antes que eu esqueça onde estou
onde estou com a cabeça?

Vamos a outro exemplo, a canção “Onde você mora”, gravada pelo grupo Cidade Negra:

… Você vai chegar em casa
eu quero abrir a porta.
Aonde você mora
aonde você foi morar
aonde foi?
Não quero estar de fora…
Aonde está você?

Quem vai vai a algum lugar. Portanto a expressão correta nesse caso é “aonde”. Aonde você foi?
Mas quem mora mora em algum lugar. Quem está está em algum lugar. Nesse caso, a construção correta seria “onde”:

Onde você mora?
Onde você foi morar?
Onde está você?

A palavra “onde” indica lugar, lugar físico e, portanto, não deve ser usada em situações em que a idéia de lugar, metaforicamente que seja, não esteja presente. Veja agora este trecho da canção “Bete Balanço”, gravada pelo Barão Vermelho:

Pode seguir a tua estrela
o teu brinquedo de star
fantasiando um segredo
o ponto aonde quer chegar…

Ensinam as gramáticas que, na língua culta, o verbo “chegar” rege a preposição “a”. Quem chega chega a algum lugar. A preposição é usada quando queremos indicar movimento, deslocamento. Portanto na letra acima a regência está correta: O ponto aonde você quer chegar.

Eu chego ao cinema pontualmente.
Eu chego a São Paulo à noite.
Eu chego a Brasília amanhã.

Na linguagem coloquial, no entanto, é muito comum vermos construções como “eu cheguei em São Paulo”, “eu cheguei no cinema”. Não é estranho trocar “onde” por “aonde” na língua do dia-a-dia ou em versos de letras de músicas populares, em que fatores como o ritmo e a melodia às vezes obrigam a uma determinada escolha gramatical para obter o efeito desejado.

De todo modo, conforme a norma culta, utilize “aonde” sempre que houver a preposição “a” indicando movimento: ir a / dirigir-se a / levar a / chegar a .

Pronome relativo precedido de preposição

Tempos atrás foi exibido, na televisão, um anúncio cujo texto dizia:

… a marca que o mundo confia.

Acontece que quem confiaconfia em. Logo, o correto seria dizer: “… a marca em que o mundo confia”.

Na linguagem informal, diz-se em geral “A rua que eu moro”, “Os países que eu fui”, “A comida que eu mais gosto”. Conforme a norma culta, as construções corretas seriam “A rua em que moro”, “Os países a que fui”, “A comida de que mais gosto”.

Vejamos um exemplo retirado da letra da música “Gostava tanto de você” (Edson Trindade), cantada aqui por Tim Maia:

…Pensei até em me mudar, lugar qualquer que não exista o pensamento em você ….

Em outra versão, Leila Pinheiro corrige e canta:

… lugar qualquer em que não exista o pensamento em você …

Leila Pinheiro ajustou o verso à norma culta. Se esse pensamento existe em algum lugar, o correto seria dizer “lugar qualquer em que não exista o pensamento em você”.
Trata-se do emprego da preposição com o pronome relativo “que“.

Na linguagem do dia-a-dia e em textos escritos mais conforme o padrão coloquial (caso das letras de MPB), essa preposição desaparece. É comum as pessoas dizerem “A empresa que eu trabalho”. Mas, na forma culta, a construção recomendada é “A empresa em que trabalho”.

Pronome relativo precedido de preposição

Um telespectador mandou e-mail pedindo que comentássemos o seguinte verso de Luiz Melodia:

Lava a roupa todo dia, que agonia.
Na quebrada da soleira, que chovia.

O que Melodia teria querido dizer com “que chovia”? Provavelmente houve a supressão da preposição”em” antes de “que”. A frase completa seria:

Na quebrada da soleira em que chovia…

Isso é algo muito comum na língua do dia-a-dia. É comum ouvirmos frases como:

A rua que eu moro
A cidade que eu nasci

Na língua padrão deve-se dizer:

A cidade em que nasci
A rua em que moro

Pode ser também que na composição de Luiz Melodia tenha ocorrido um cruzamento de construção. É o que acontece em frases como “Este piso escorrega”. Na verdade não é “o piso que escorrega”, e sim as pessoas que escorregam nele. Do mesmo modo, não é “a soleira que chove”, mas antes chove na soleira.

Esse tipo de cruzamento é muito comum na linguagem cotidiana. Com um pouco mais de atenção, notaremos que fenômenos como o que vemos na letra de Luís Melodia são mais comuns do que imaginamos.

Os verbos “esquecer” e “lembrar”

Uma letra da dupla Roberto e Erasmo Carlos, “Emoções”, traz uma estrutura que não seria admissível na linguagem escrita padrão:

… são tantas já vividas
são momentos que eu não me esqueci…

Ocorre que a sintaxe do verbo “esquercer” funciona da seguinte maneira:

Se eu me esqueci, eu me esqueci de
Quem se esquece esquece-se de algo
Quem esquece esquece algo

Logo, conforme a regência culta desse verbo, o correto seria dizer “são momentos de que não me esqueci”. Pode-se, também, eliminar a preposição “de” e o pronome “me“. Nesse caso, a frase ficaria assim: “são momentos que eu não esqueci”.

Em um jornal de grande circulação o texto de uma campanha afirmava: “A gente nunca esquece do aniversário de um amigo”.

A norma culta mandaria escrever:

A gente nunca esquece o aniversário de um amigo.
A gente nunca se esquece do aniversário de um amigo.

Vale o mesmo esquema para o verbo “lembrar”:

Quem lembra lembra algo

Quem se lembra lembra-se de algo

Se você usar o pronome, isto é, se usar o verbo pronominalmente, então não poderá deixar de lado a preposição:

Eu não lembro o seu nome.
Não conseguia lembrar sua fisionomia.

Se você não usar o pronome, então também não usará a preposição:

Eu não me lembro do seu nome.
Não conseguia me lembrar de sua fisionomia.

Evidentemente essa regência nem sempre é observada na linguagem mais informal, familiar. Vejamos o que ocorre na canção “Lembra de Mim”, cantada por Ivan Lins. A letra é de Vítor Martins:

Lembra de mim
dos beijos que escrevi
nos muros a giz
Os mais bonitos continuam por lá
documentando que alguém foi feliz
Lembra de mim
nós dois nas ruas
provocando os casais…

De acordo com a gramática normativa, o título da canção e a letra estariam errados. Deveria ser “Lembra-se de mim…

No dia-a-dia as pessoas não falam com esse rigor, com essa consciência do sistema de regência. Dessa forma, podemos dizer “lembra de mim”, sem problema, dependendo do registro usado. A língua falada permite essas licenças, e a poesia musical também, já que não deixa de ser um tipo de língua oral. Mas, na hora de escrever, é conveniente obedecermos àquilo que está nos livros de regência. No texto formal, “lembra-se de mim” é a forma exigível, correta.

O verbo “chegar”

Regência, em gramática, é o conjunto de relações que existem entre as palavras. Por exemplo: quem gosta gosta de alguém. O verbo “gostar” rege a preposição “de“. Embora aprendamos a regência naturalmente, no dia-a-dia, a gramática muitas vezes estabelece formas diferentes das que utilizamos na linguagem cotidiana. Costumamos, por exemplo, dizer que chegamos em algum lugar, quando a norma culta indica que chegamos a algum lugar.

Padrão culto
A caravana chegou hoje a Manaus.
A caravana chegou hoje a Brasília.
A caravana chegou hoje ao Brasil.
A caravana chegou hoje à Bahia.

Padrão informal
A caravana chegou hoje emManaus.
A caravana chegou hoje em Brasília.
A caravana chegou hoje no Brasil.
A caravana chegou hoje na Bahia.

Os verbos “extorquir” e”exigir”

O fiscal foi acusado de extorquir os comerciantes.

Você já deve ter ouvido isso muitas vezes em noticiários, não é? Na verdade não é possível que uma pessoa faça isso porque “extorquir” significa tirar algo mediante ameaça, mediante algum tipo de mecanismo não muito lícito. Portanto, se é possível “extorquir” algo de alguém, “extorquir”alguém já seria um procedimento estranho.

Esses cruzamentos, essas alterações de estrutura são muito comuns. Repare no exemplo a seguir:

Às vezes, você é exigida a ser a mulher mais moderna do mundo.
(propaganda de uma empresa de previdência privada)

Será que uma pessoa é exigida a ser algo? Na verdade, algo é que é exigido de alguém. A construção “Às vezes você é exigida a ser a mulher mais moderna do mundo” é totalmente equivocada e contrária à língua portuguesa.

Corrigindo-se a frase, teremos:

Às vezes, exige-se que você seja…
Às vezes, exige-se de você que seja a mulher mais moderna do mundo.

Cruzamento de regências
“arrasar com”

Observe a letra da canção “Política voz”, gravada pelo Barão Vermelho:

Eu não sou um mudo balbuciando, querendo falar
eu sou a voz, a voz do outro, que há dentro de mim
guardada, falante, querendo arrasar
com o teu castelo de areia
que é só soprar, soprar
soprar, soprar e ver tudo voar…

Você notou alguma coisa diferente na letra? Em certa altura o letrista escreve:

arrasar com o teu castelo de areia.

Ocorre aí um fenômeno lingüístico chamado contaminação. Em tese, o verbo “arrasar” é transitivo direto, não pediria preposição:

O furacão arrasou a cidade.

O verbo “acabar” pode ser usado com o mesmo sentido de “arrasar”:

O furacão acabou com a cidade.

Assim, o que ocorre é o cruzamento da regência do verbo “acabar“- com o sentido de destruir, que requer a preposição”com” – com a do verbo “arrasar”. Os sinônimos de certas palavras acabam por receber a companhia da preposição que na verdade não exigem. O verbo “arrasar” é um deles. No padrão formal da língua, deve ser usado sem a preposição “com“.

Os lingüistas podem argumentar que essa variante deve ser aceita, mas em nosso programa temos sempre a preocupação de ensinar o padrão formal e mostrar o que acontece nas variantes. Quando você escrever uma dissertação, por exemplo, utilize o verbo “arrasar” sem a preposição.

Cruzamento de regências
“levado ao hospital” / “socorrido no hospital” / “socorrido ao hospital”

No noticiário policial, é comum o repórter dizer:

O ferido foi socorrido ao hospital x.

Será que uma pessoa é socorrida a um hospital?

Ocorre aí um cruzamento de regências. O verbo “levar” e o verbo “socorrer” influenciam um ao outro.

“Levar” é verbo que indica movimento, e a tendência é que se use a preposição “a”:

Levar alguém a um hospital
Levar alguém a algum lugar

Já o verbo “socorrer” não indica movimento. Usa-se, portanto, a preposição “em”:

Socorrer alguém em um hospital
Socorrer alguém em algum lugar

O que acontece é que as regências se cruzam, originando a forma “o ferido foi socorrido ao hospital x”.

Não se deve escrever assim em língua padrão. Construções mais adequadas seriam:

Ele foi levado ao hospital.
Ele foi socorrido no hospital.

Se você precisar usar “onde” ou “aonde”, lembre-se de que na língua padrão de hoje é conveniente usar “aonde” com o verbo “levar”.

Aonde você pretende levá-la?

Isso porque seria “levá-la a algum lugar. O uso de “aonde”, soma de “a” e “onde“, é obrigatório.

O desafio “trava-língua”

O rato roeu a roda da carruagem do rei de Roma.
Três tigres trituram três pratos de trigo

Tente dizer essas frases várias vezes em seguida. Trata-se de uma brincadeira que se faz muito por aí, um tipo de desafio “quebra-língua”. Na verdade, o que temos nessas frases é a repetição de fonemas (sons) consonantais, ou o uso de fonemas parecidos:

Três tigres trituram três pratos de trigo

Existe aí a repetição do fonema /t/, do fonema /r/ e do encontro consonantal /tr/. No outro exemplo, temos a repetição do fonema /r/:

O rato roeu a roda da carruagem do rei de Roma.

Esse recurso chama-se aliteração e é bastante usado na poesia. Vamos a um exemplo, um trecho da canção “Alvorada Voraz”, de Paulo Ricardo:

Virada do século
alvorada voraz
nos aguardam exércitos que nos
guardam da paz (que paz?).
A face do mal, um grito de horror
um fato normal, um êxtase de dor
e medo de tudo, medo do nada.
Medo da vida, assim engatilhada
fardas e força forjam
as armações…

Nessa letra temos dois trechos com aliterações: em “alvorada voraz” há a repetição do fonema /v/ e do fonema /r/. E mais adiante, em “fardas e força forjam as armações”, temos a repetição do fonema /f/. Tente fazer uma aliteração e perceba como é difícil para o poeta fazer uma combinação que tenha bom gosto e faça sentido.

A repetição de palavras

Nunca repita palavras no seu texto.

Quem, durante sua vida estudantil, nunca ouviu seu professor ou professora fazer essa recomendação? Por causa dela, o aluno cria uma camisa-de-força ao escrever sua redação, supondo que seu trabalho ficará péssimo se utilizar mais de uma vez a mesma expressão. Mas será que a repetição de palavras é um recurso sempre condenável?

Preste atenção na letra da canção “Flores em você”, gravada pelo grupo Ira!:

De todo o meu passado
boas e más recordações.
Quero viver meu presente
e lembrar tudo depois.
Nessa vida passageira,
eu sou eu, você é você.
Isso é o que mais me agrada.
isso é o que me faz dizer
que vejo flores em você.

A repetição, nesse caso, é um recurso usado de forma leve: a estrutura “isso é o que…” foi repetida apenas uma vez, com a intenção de dar ênfase àquele trecho da letra. Há casos em que a repetição é feita de forma bem mais intensa, como na canção “À primeira vista”, gravada por Chico César:

Quando não tinha nada, eu quis.
Quando tudo era ausência, esperei.
Quando tive frio, tremi.
Quando tive coragem, liguei.
Quando chegou carta, abri.
Quando ouvi Prince, dancei.
Quando olho brilhou, entendi.
Quando criei asas, voei.
Quando me chamou, eu vim.
Quando dei por mim, tava aqui.
Quando lhe achei, me perdi.
Quando vi você, me apaixonei.

A repetição da mesma palavra no início de dois ou mais versos chama-se anáfora. Esse recurso, na linguagem poética, é perfeitamente possível. Na linguagem formal, na dissertação, a repetição abusiva pode não levar ao mesmo resultado. Por isso evite esse recurso no seu texto formal ou utilize-o com muito critério e consciência.

Metáfora desgastada

Você já parou para pensar que a palavra “embarcar” deriva de barco ou barca? “Embarcar”, ao pé da letra, significa entrar no barco ou na barca, e não no trem, no carro, no ônibus ou no avião. No entanto todo mundo embarca no trem, no carro, em todos os meios de transporte. Esse é um fenômeno lingüístico chamado catacrese, um tipo de metáfora desgastada.

A metáfora se faz por semelhança. No caso, a semelhança entre um barco e um trem está em que ambos são meios de transporte. Como não existe um verbo específico para cada meio de transporte, então utilizamos – por metáfora – o verbo “embarcar“para todos eles. Com o tempo, a metáfora se desgasta, fenômeno a que damos o nome de catacrese.

Vamos a um exemplo interessante de catacrese na música “Azul”, de Djavan:

Eu não sei se vem de Deus
do céu ficar azul
ou virá dos olhos teus
essa cor que azuleja o dia?
Se acaso anoitecer
do céu perder o azul…

Será que “azul” e “azulejo” têm algo em comum? Os bons dicionários alegam que sim. Dizem que o azulejo, quando surgiu, era branco ou azul, e por isso emprestou da palavra “azul” a origem de seu nome. Por isso “azulejo” é uma catacrese: por semelhança lógica com a cor azul, por metáfora que se desgastou com o uso.

Outros exemplos de catacrese:

bico da pena
dente do alho
dente do pente
braço da cadeira

Elipse

Talvez você tenha ouvido essa palavra numa aula de matemática ou numa aula de português. O termo pertence aos dois territórios. Acompanhe a letra de “Só se for a dois”, de Cazuza:

Aos filhos de Gandhi, morrendo de fome
aos filhos de Cristo (irmãos), cada vez mais ricos

o beijo do soldado em sua namorada
seja para onde for.

No trecho destacado, as vírgulas têm o papel de indicar algo mais além do que está escrito. A frase “Aos filhos de Cristo, cada vez mais ricos” quer dizer, na verdade, “aos filhos de Cristo que estão cada vez mais ricos”. Há um verbo oculto aí, um verbo que está subentendido. Isso é elipse: omissão de termo que se deduz facilmente pelo contexto, embora não venha expresso, não esteja explícito.

Redondilhas

Observe a letra de “Paratodos”, de Chico Buarque:

…Foi Antonio Brasileiro
quem soprou esta toada
que cobri de redondilhas
pra seguir minha jornada
e com a vista enevoada
ver o inferno e maravilhas
nessas tortuosas trilhas
a viola me redime
creia ilustre cavalheiro
contra fel, moléstia, crime
use Dorival Caymmi
vá de Jackson do Pandeiro…

Chico Buarque usou a palavra “redondilhas”, que são versos com um determinado número de sílabas. Mas o compositor não apenas usou essa palavra como pôs em prática o seu conceito. O professor de literatura Ulisses Infante nos ajuda a definir o significado de “redondilha”: “Redondilha é o nome que se dá ao verso de cinco sílabas poéticas ou de sete sílabas poéticas. O verso de cinco sílabas poéticas é a redondilha menor”. Esse recurso usado por Chico Buarque remonta à Idade Média.

O compositor recorreu a um artifício legítimo: usou o artigo em “O meu pai”, mas não o usou em “Meu avô”. Dessa forma, os dois versos ficaram com sete sílabas poéticas (só se conta até a última sílaba tônica)”.

O meu pai e-ra pau-lis-ta
Meu a-vô per-nam-bu-ca-no

Vamos a mais um exemplo, a canção portuguesa “Cantiga Partindo-se”, de João Raiz de Castel’Branco e Vitorino:

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por nós, meu bem
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém
tão tristes, tão saudosos
tão doentes da partida
tão cansados, tão chorosos
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida
Partem tão tristes os tristes
tão fora de esperar bem
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém

Essa canção faz parte do disco “Leitaria Garrett”, do compositor, cantor e violonista português Vitorino. A letra, do poeta João Raiz de Castel’Branco, data do século XVI, conforme o professor Ulisses Infante: “Hoje, nos referimos a este poeta simplesmente como Castelo Branco. Seu trabalho faz parte do livro O Cancioneiro Geral, publicado em 1516. Podemos notar que o poeta também usou a redondilha de sete sílabas”.

Se-nho-ra, par-tem tão tris-tes
Meus o-lhos por nós, meu bem

Guarde o significado de “redondilha”:

redondilha maior (ou simplesmente redondilha) = verso de 7 sílabas poéticas
redondilha menor = verso de cinco sílabas poéticas

Inversão da ordem das palavras

Será que você conhece esta frase: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante”? É claro que sim. Trata-se do começo do Hino Nacional Brasileiro. São treze palavras dispostas em ordem que não é a ordem natural em língua portuguesa. Temos aqui a figura do hipérbato. Na ordem direta, a frase ficaria assim:

As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico.

Esse “as” de “as margens plácidas” não recebe acento indicador de crase. Está na letra oficial do Hino Nacional.
Veja um caso mais simples de hipérbato no texto abaixo:

(Música “Toada”, do grupo Boca Livre)

Vem, morena
ouvir comigo essa cantiga
sair por essa vida aventureira
tanta toada eu trago na viola
pra ver você mais feliz.

A letra diz “…tanta toada eu trago na viola…”. Quem traz traz alguma coisa. No caso, “tanta toada”, que é o complemento do verbo. A expressão “tanta toada” aparece, no entanto, no início. Mais natural seria se ela viesse depois de “trago”:

Eu trago tanta toada na viola…

Em geral, faz-se essa inversão ou para colocar em evidência o termo que se desloca, ou para que o poeta tenha algum recurso a mais para rimar. A isso se dá o nome de hipérbato, que é a”inversão da ordem natural das palavras”.

Expressões com duplo sentido

Você já parou para pensar no significado da expressão “ilustre desconhecido”? Nós a utilizamos quando nos referimos a um cidadão comum, uma pessoa que não é famosa.

Tempos atrás, quando o então candidato à presidência Fernando Henrique Cardoso teve seu nome incluído numa pesquisa popular, descobriu-se que pouquíssimas entre as pessoas ouvidas sabiam de quem se tratava. E o candidato já era ministro de Estado. Na época, o jornal Folha de S. Paulo fez um texto interessante, referindo-se a Fernando Henrique como um ilustre desconhecido, mas não no sentido comum da expressão. O texto queria dizer que de fato o candidato era uma pessoa ilustre, por toda a sua carreira acadêmica e política, mas ainda assim uma pessoa desconhecida do grande público. Nesse caso a palavra “ilustre” foi usada no seu sentido efetivo, registrado normalmente pelos dicionários, mas compondo uma expressão que tem duplo sentido.

Muitas palavras podem ser empregadas em mais de um sentido, como na canção de Rita Lee, “Obrigado Não”:

Quanto mais proibido
Mais faz sentido a contravenção.
Legalize o que não é crime
Recrimine a falta de educação.
Gravidez versus aborto –
Quem quer nascer no mar morto?
Quem quer morrer
Antes da concepção?
Obrigado não, obrigado não

Preste atenção na letra e note que no último verso a palavra “obrigado” tem duplo sentido. Ao mesmo tempo em que ela quer dizer “Não, obrigado, isso eu não quero”, também quer dizer que não é agradável fazer algo por obrigação; bom mesmo é fazer com consciência.

Dessa forma, a palavra “obrigado” é usada de uma forma que ultrapassa o sentido que normalmente tem no uso comum da língua portuguesa. A letra da música, muito inteligente, comprova que o seu título faz sentido, ou melhor, faz duplo sentido.

A palavra que imita o som

Há um tipo de avião pequeno que se chama teco-teco. “Teco-teco” é uma palavra surgida a partir de um processo conhecido como onomatopéia.

Onomatopéia é a tentativa de reprodução de sons por meio de palavras. A palavra tenta imitar os sons.

O avião chama-se teco-teco porque o funcionamento do seu motor produz um som parecido com teco-teco. O mesmo acontece com o instrumento reco-reco.

A onomatopéia é muito comum na linguagem infantil: ai, ui, tóim, bam, bum etc… Todas essas e muito mais são expressões onomatopéicas ou onomatopaicas.

Esse fenômeno existe em nossa língua assim como em várias línguas do mundo.

Encontro de idéias opostas

Imagine esta situação: enfrentam-se Palmeiras e Corinthians, e Marcelinho do Corinthians marca um gol; um palmeirense se levanta e vibra.

Se você tivesse de usar um adjetivo para definir a atitude do palmeirense que vibrou com o gol de Marcelinho contra o Palmeiras, que adjetivo você usaria?

Veja um caso que mereceria adjetivo semelhante numa das chamadas “Canções que você fez pra mim”, de Roberto e Erasmo.

É tão difícil olhar o mundo
e ver o que ainda existe
pois sem você
meu mundo é diferente
minha alegria é triste.

O último verso diz: “…minha alegria é triste”. A alegria e a tristeza se opõem. Como é possível que a alegria tenha como característica básica a tristeza? Trata-se de um paradoxo, encontro de idéias que se opõem. É a partir dessa palavra que se forma o adjetivo que poderia qualificar a atitude do torcedor: paradoxal. Se a minha alegria é triste, ela tem uma qualidade que é antagônica a sua própria natureza.

Assim, o entusiasmo do palmeirense com o gol do Marcelinho seria, sem dúvida, um entusiasmo paradoxal.

Expressões redundantes

Você já ouviu falar em pleonasmo? Trata-se da repetição de uma idéia que já está contida em termo anterior. Veja um exemplo:

Eu sonhei um sonho.

Se eu sonhei, obviamente foi um sonho. Algumas vezes, a palavra “pleonasmo” pode ser usada no dia-a-dia com o sentido de ironia. Alguém diz, por exemplo: “Aquele é um político falador”. Outra pessoa pode retrucar: “Político falador é um pleonasmo”. Com certeza, o comentário deve-se ao fato de que, normalmente, o político é mesmo um falador, fala, fala, fala….

Existem pelo menos dois tipos de pleonasmo: aquele que não acrescenta nada, como “entrar para dentro”, e aquele que tem certa expressividade, reativando o sentido original.

Vejamos um trecho da canção “Vou deixar que você se vá”, gravada pelo grupo Nenhum de Nós:

… Procure o seu caminho
Eu aprendi a andar sozinho
Isto foi há muito tempo atrás
Mas ainda sei como se faz
Minhas mãos estão cansadas
Não tenho mais onde me agarrar.

Expressões como “há muito tempo atrás” estão consagradas na língua do dia-a-dia e até em textos literários. Ao pé da letra, é um pleonasmo. Se alguém esteve em algum lugar há 10 anos, necessariamente foi no passado. Por isso a palavra “atrás”, nesse caso, é redundante, é um pleonasmo. Trata-se, porém, de um pleonasmo tão usado que alguns autores supõem seja hora de aceitá-lo. No português rigoroso, contudo, é melhor não usá-lo.

Vejamos outro caso, agora na letra da canção “Tanta saudade”, gravada por Djavan:

… Mas voltou a saudade
É, pra ficar
Ai, eu encarei de frente
Ai, eu encarei de frente, menina
Se eu ficar na saudade
É, deixa estar
Saudade engole a gente
Saudade engole a gente, menina…

A expressão “encarei de frente” também é consagrada no uso popular. Mas “encarar” já significa “olhar de frente”. Assim, “encarei de frente” é redundância, é pleonasmo. Esse recurso faz sentido em determinados contextos, em textos literários em que se quer enfatizar uma idéia.

Rigorosamente, no entanto, são construções que trazem informações desnecessárias, redundantes. Algumas vezes utilizamos pleonasmos sem perceber. Por exemplo:

Ele tem uma bela caligrafia.

“Cali”, um radical grego, quer dizer “belo”, “bonito”. Assim, “caligrafia” significa “grafia bonita”, o que torna a expressão “caligrafia bonita” um pleonasmo. Como, no entanto, praticamente se perdeu a noção de que caligrafia já tem a palavra “belo”, escrever “bela caligrafia” não constitui um deslize e é aceito pelo padrão culto.

Palavras com múltiplos significados

O que é polissemia?

poli = vários.
semia = significado
polissemia: vários significados para uma mesma palavra.

Um dos campeões da polissemia é o verbo “ter”. Veja os significados que ele adquire no texto abaixo.

Vamos, carioca
sai do teu sono devagar
o dia já vem vindo
aí o sol já vai raiar
São Jorge, teu padrinho
te dê cana pra tomar
Xangô, teu pai
te dê muitas mulheres para amar
ê, vida tão boa
só coisa boa pra pensar
sem ter que pagar nada
céu e terra, sol e mar
e ainda ter mulher
e ter o samba pra cantar
o samba que é o balanço
da mulher que sabe amar.

Essa canção, “Samba do carioca”, de Carlos Lira e Vinícius de Moraes, faz parte de um belo espetáculo chamado “Pobre menina rica”. Observe que, na primeira ocorrência (” sem ter de pagar nada” ),o verbo”ter” transmite a idéia de obrigação, como vemos nos seguintes exemplos:

Tenho de levantar cedo amanhã.
Temos de escovar os dentes quatro vezes por dia.

Na segunda vez que surge na letra (“e ainda ter mulher e ter o samba…”), o verbo “ter” adquire outro sentido. Agora, transmite-se a idéia de posse.

Esses são apenas alguns significados dos tantos que o verbo “ter” apresenta.

Uma concordância ideológica

Será que os erros de concordância sempre ocorrem por desconhecimento das regras ou será que é possível errar intencionalmente?

Às vezes o erro é intencional e está articulado com o contexto, com a intenção de quem escreve. Um exemplo inequívoco disso é a letra “Inútil”, do grupo “Ultraje a Rigor”.

A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente
A gente não sabemos nem escovar os dentes
Tem gringo pensando que nós é indigente
Inútil, a gente somos inútil
Inútil, a gente somos inútil

Em muitos lugares do Brasil pratica-se essa concordância com muita naturalidade. De acordo com a língua oficial, no entanto, trata-se de uma construção equivocada. “A gente não somos inútil”, “a gente é inútil”. Contudo, para o clima da letra, para o contexto que foi criado, é até necessário errar a concordância intencionalmente para que a sátira fique mais evidente. A forma gramatical busca aqui se adequar à mensagem. Por se tratar de texto poético, a quebra da norma se justifica porque visa a um fim determinado. Há consciência da parte do letrista de que se trata de um erro, cometido apenas para enfatizar a inutilidade desse “a gente” (que afirma sua incapacidade para até mesmo concordar o verbo com o sujeito).

Na linguagem formal, não há dúvida de que a construção recomendada é “Somos inúteis”, “A gente é inútil”, possuindo esta última construção um matiz coloquial pelo uso de “a gente” no lugar de “nós”.

 

A importância do dicionário

É preciso criar o hábito de pesquisar em dicionários. Não é possível ficar satisfeito com o desconhecimento de palavras e de seus significados. Se for preciso, pare a leitura e consulte um bom dicionário.

Grandes nomes de nossa música popular recorrem ao dicionário quando necessário. Veja um depoimento a esse propósito de Erasmo Carlos:

Roberto Carlos e eu, a gente trabalha de todas as maneiras possíveis e imagináveis porque ambos tocam e ambos escrevem. Logicamente a gente conta com Deus e com um dicionário de rimas, de sinônimos e antônimos e com o dicionário Aurélio.

Já Tom Jobim disse certa vez que só usa o dicionário se procura algo especial, o que é compreensível. Ele era muito culto, conhecia muitas palavras. Basta atentar para o texto da canção “Águas de março”, um desfile de substantivos sofisticados, índice de domínio do idioma.
Erasmo dá uma dica importante: há vários tipos de dicionário, o de sinônimos e antônimos, o de rimas, entre outros. Infelizmente as pessoas conhecem, normalmente, apenas um, o Aurélio. E, se o conhecem, mal o consultam.

No dicionário de sinônimos e antônimos há, para cada palavra, aquelas que portam significado oposto ou semelhante.
Tomemos como exemplo “fleumático”. Esse adjetivo significa frio, calculista, categórico, impassível. Qual o oposto de “fleumático”? A resposta é encontrada no dicionário de sinônimos e antônimos: inquieto, nervoso, agitado, indeciso.

Regência é o mecanismo de relação entre as palavras. Há dicionários de regência. Neles

podemos descobrir que “quem gosta gosta de” quando o sentido é achar bom, ter afeição.

Ex: Eu gosto de vinho.

Mas será que é possível “Eu gosto vinho“? Sim, é possível. Se eu “gosto vinho”, eu

experimento vinho, eu provo, eu saboreio, eu degusto. É o dicionário de regência que vai nos ensinar isso.

Há ainda o dicionário etimológico. Ele nos ensina a origem das palavras. Se procuramos

a palavra “egocêntrico”, por exemplo, descobrimos que “ego” vem do latime

significa “eu”; “egocêntrico”, portanto, significa aquele que

centraliza tudo no eu, ou melhor, em si mesmo.

Dias da semana

Vamos acompanhar trechos de duas letras de músicas que possuem algo em

comum. A primeira delas é “A Feira”, gravada pelo grupo O Rappa:

É dia de feira
Quarta-feira, sexta-feira
Não importa a feira
É dia de feira
Quem quiser pode chegar…

A outra canção é “Perplexo”, gravada pelos Paralamas do Sucesso:

… Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira
quinta-feira, sexta-feira, sábado
de aleluia.
Eu vou lutar, eu vou lutar
eu sou Maguila, não sou Tyson.

Nas duas letras aparece a seqüência dos dias da semana em português.
Quando alguém estuda uma língua estrangeira (espanhol, Italiano ou francês, por exemplo),

logo nota que os dias têm nomes parecidos. Vamos ver como é “segunda-feira” nessas línguas:

italiano: “lunedi”
espanhol: “lunes”
francês: “lundi”

Em inglês é “monday”. Ou seja, em todos esses idiomas a segunda-feira é sempre o

“dia da lua”, ao pé da letra. E, em português, os dias da semana são sempre terminados

por “feira”. Essa é a dúvida de muita gente e também da nossa telespectadora

Gláucia Greggio, que enviou e-mail perguntando por que os dias da semana recebem têm esses nomes.

A explicação é muito simples. No português já houve nomes como os que são dados nas outras

línguas, mas a Igreja Católica, a certa altura, obrigou à mudança porque os nomes eram

baseados em deuses pagãos. “Feira”, na linguagem litúrgica, é “dia de trabalho”.

É o dia em que se trabalha, em que se festeja algum santo que não é o Senhor. O Dia do Senhor,

como todo mundo sabe, é o domingo, o primeiro dia da semana.

Por isso, entre nós, os chamados “dias úteis” começam pela segunda-feira.

A origem do termo “burguês”

No Brasil há uma cidade chamada Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. Em Minas

Gerais temos Cordisburgo, cidade onde nasceu Guimarães Rosa. No exterior também

há várias cidades com nomes cuja terminação é igual: Edimburgo,

capital da Escócia; Hamburgo, na Alemanha, entre outras.

O que quer dizer burgo? Esse termo tem a mesma origem etimológica que burguês? “Burgo”

remonta à Idade Média, em que era o nome dado a cidades que eram

protegidas por fortalezas. É por isso que tantas cidades

têm essa terminação em seus nomes.
Dessa palavra procede o adjetivo “burguês”, também usado como

substantivo e que designava o habitante do burgo.

Família etimológica – “atravessar” e “travesseiro”

Será que as palavras “atravesso” e “travesseiro” têm algo em comum? Confira

na letra abaixo, extraída da canção “Garganta”, de Ana Carolina:

do teu quarto, da cozinha, da sala de estar
minha garganta arranha a tinta e os azulejos
do teu quarto, da cozinha, da sala de estar
venho madrugada perturbar teu sono
como um cão sem dono me ponho a ladrar
atravesso o travesseiro, te reviro pelo avesso
tua cabeça enlouqueço, faço ela rodar
atravesso o travesseiro, te reviro pelo avesso
tua cabeça enlouqueço, faço ela rodar…

“Atravesso o travesseiro”, diz a letra. As palavras “atravesso” e “travesseiro” não são

apenas parecidas como possuem uma origem comum: a idéia de algo posto de

través, atravessado. O travesseiro recebe esse nome justamente

porque fica atravessado em relação ao colchão.

AEtimologia é o estudo da origem das palavras. Por meio dela, podemos descobrir

palavras que têm a mesma raiz, que partilham a mesma origem.

Termos como “atravessar”, “de través”, “através”, travesseiro e tantas outras pertencem

a uma mesma família, isto é, a uma mesma família etimológica. Família etimológica
“sarjeta” e “gorjeta”

(música “Bwana”, de Rita Lee)

Adeus, sarjeta
Bwana me salvou
não quero gorjeta
faço tudo por amor.
Adeus, sarjeta
Bwana me salvou
não quero gorjeta
faço tudo por
faço tudo
faço tudo por amor.

“Sarja”é o ornamento das calçadas, uma espécie de acabamento nas guias.

“Sarjeta”, que encontramos no texto acima, é o diminutivo de “sarja”.

Ainda na letra temos: “Não quero gorjeta”. “Gorjeta” vem de “gorja”, palavra de origem

francesa (gorge), que quer dizer “garganta”. A gorjeta é um dinheirinho que

se dá a alguém para que tome um trago, uma bebida, e molhe a garganta.

O verbo “gorjear”, presente no famoso verso “As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam

como lá”, de Gonçalves Dias, é da mesma família de “gorjeta”.

Família etimológica: grupo de palavras que têm a mesma origem.

“to push” / “to pretend”

Você sabe o que são “palavras cognatas”? São palavras que pertencem à mesma

família etimológica. Exemplos de palavras cognatas:

pedra – pedreiro
pedra – pedrinha
jornal – jornalista
jornal – jornaleiro

Portanto essas palavras que são da mesma família, que têm um mesmo radical, são chamadas

de “cognatas”. Acontece que existem palavras que parecem cognatas, mas não são. Por exemplo:

“feracidade” parece ter relação com “feroz”, “bravo”, “temível”. Na

verdade, “feracidade” significa extrema fertilidade, e “feraz” é prolífico, fértil, ubertoso.

Esse substantivo aparece numa das obras-primas

de Manuel Bandeira, “O cacto”

, do qual se diz que “Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades

excepcionais”, isto é, de fertilidades excepcionais.

Os chamados “falsos cognatos” muitas vezes nos pregam peças

incríveis. Existe uma palavra

inglesa, “push”, que muitas pessoas acham que significa “puxar” em português, quando na

verdade quer dizer “empurrar”, “pressionar”. A letra da canção “A sombra

da maldade”, gravada pelo grupo Cidade Negra, traz uma palavra cuja

origem também causa dúvida em muitas pessoas:

… A minha vida muda sempre lentamente como a lua
que dá voltas pelo céu e mexe
tanto com o presente quanto o ausente
eu sei, eu sei, eu sei
Não sou vidente mas sei o rumo do seu coração

Certa vez, uma das questões do vestibular da Fuvest citava a palavra “vidente” e pedia ao aluno

que indicasse as palavras cognatas. Muitas pessoas supõem que “vidente”

seja da mesma raiz de “vida”, mas na verdade a palavra

possui a raiz latina do verbo “ver”.

Vamos ver outro exemplo, agora na canção “The Great Pretender”, gravada por Fred Mercury:

Oh yes I’m the great pretender
Pretending I’m the great pretender
Pretending I’m doing well
My need is such
I pretend too much
I’m lonely but no one can tell…

O verbo da língua inglesa “to pretend” também surpreende muitas pessoas, que logo pensam

em “pretender”. Mas “to pretend” quer dizer “fingir”. “Pretender” seria o mentiroso,

o fingidor. Por essas e por outras, tome sempre

muito cuidado com os falsos cognatos.

O prefixo des
“despertar”/ “espertar”

Você está dormindo e desperta. O que acontece quando você desperta? Você fica esperto. “Despertar”

tem o mesmo sentido que “espertar”. Às vezes não relacionamos as palavras. Elas estão depositadas

na nossa memória, e, embora possamos usá-las com freqüência,

não as associamos. “Despertar” é “ficar esperto”. Afinal, quem está dormindo não está e

sperto; está repousando, tranqüilo. Acordou: já está esperto.

Despertar = espertar

Como “despertar” pode ser igual a “espertar” se uma possui o “des-“, prefixo com valor negativo?

Ocorre que nem sempre esse prefixo tem o referido valor. Veja, por exemplo, a palavra

“descamar”.”Descamar” é “tirar as escamas”. Existeescamar?

Existe, sim, e também significa “tirar as escamas”.

Escamar o peixe
Descamar o peixe

Veja alguns exemplos mais de palavras equivalentes com e sem “des-“:

Desbarrancar/esbarrancar
Descabelar/escabelar

Portanto, antes de se precipitar e tirar conclusões, pense, reflita. Se for o caso, vá ao dicionário.

 

A palavra “laia”

Meu escritório é na praia
eu tô sempre na área
mas eu não sou daquela laia, não.
Então deixe viver, deixe ficar
deixe estar como está

Trata-se de trecho da música “Zóio da lula”, do grupo Charlie Brown Jr. Nele aparece a palavra “laia”,

típica de frases como “Eu não sou da sua laia”, “Junte-se aos que são da sua laia”.

Que significado, afinal, tem a palavra “laia”?

“Laia”, ensinam os dicionários, quer dizer casta, jaez. No entanto a expressão “ser da laia”, “fazer

parte de uma laia” ganhou sentido pejorativo. Quando alguém diz “eu não sou da sua laia”,

está querendo dizer “eu não sou do seu nível”, e esse nível é ruim.

Mas a palavra não tem necessariamente esse sentido nem tem uso exclusivo na língua popular.

A palavra está nos textos literários também como sinônimo de casta, jaez, feitio.

Há ainda a expressão “fazer algo à laia de”, que significa “fazer algo à moda de”, “à maneira de”.

A palavra “nau”

Quando a economia do país vai mal, é comum que se diga que

“a nau está à deriva”. Mas a nau,

ao pé da letra, não está à deriva. Ocorre aí uma metaforização, uma figuração da linguagem.

Veja abaixo a letra da música “Nau à deriva”, do grupo Engenheiros do Havaí:

Nau à deriva
no asfalto ou em alto-mar
“perigo, perigo”
perdidos no espaço sideral
apocalypse now à deriva
talvez um parto, talvez aborto
destroços da nave (hey!) mãe

O começo da letra comprova o que já foi mencionado antes. Na letra de música, a

frase “Nau à deriva no asfalto ou em alto-mar…” tem valor figurado.

O que vem a ser “nau”?”Nau” é nave, embarcação. Essa palavra vem do latim, e também

há registro dela no idioma catalão como sendo um antigo navio redondo.

Da palavra nau são feitas muitas palavras. Entre as mais conhecidas estão “naufragar” e

“naufrágio”. O termo “naufragar”é formado por “nau” e por “fragar”, que é da mesma

família de “frágil” (quebradiço). Então”naufragar”significa “ir a pique”,

“soçobrar”. Isso porque a embarcação se quebra e afunda.

Temos também palavras como “náusea”, que significa “enjôo de mar”, nauta, que é “aquele

que navega”, astronauta, internauta, argonauta, náutica, náutico e

tantas outras palavras formadas com o elemento “nau”.

“Quiçá”

Ninguém conhece o dicionário inteiro, talvez nem o dicionarista, o lexicógrafo. Mas, se

pudermos aumentar o número de palavras em nosso repertório, tanto melhor. Há, além

dos vocábulos desconhecidos, aqueles que ouvimos de vez em quando e mesmo usamos

sem que tenhamos uma consciência exata de seu significado. Vamos a

um exemplo, retirado da canção “Sina”, de Djavan:

… Quando o grito do prazer
açoitar o ar reveillon,
o luar estrela do mar,
o sol e o dom, quiçá um dia
a fúria desse front virá lapidar
o sonho, até gerar o som
como querer caetanear
o que há de bom

O quer dizer “quiçá”? Quer dizer “quem sabe”, “talvez”:

“Quiçá um dia”, ou “quem sabe um dia”.
O melhor a fazer em relação a termos desconhecidos é consultar o dicionário.

“Rezingar”

Nosso vocabulário precisa ser o maior possível. Há palavras

que não se usam freqüentemente

e que, no entanto, precisam ser conhecidas. São as palavras que fazem parte do chamado

vocabulário passivo, pouco utilizado na vida cotidiana, mas logo mobilizado para entender

um texto, por exemplo. Vejamos na canção abaixo, “Maria Moita”, de Carlos Lyra

e Vinícius de Moraes, uma palavra pouco usada em nosso dia-a-dia:

Homem, acaba de chegar, tá com fome
a mulher tem que olhar pelo homem.
E é deitado, em pé mulher tem é que trabalhar.
O rico, acorda tarde, já começa a rezingar.
O pobre, acorda cedo, já começa a trabalhar…

Você notou que, a certa altura, aparece o termo “rezingar”. Segundo o dicionário Aurélio,

rezingar é, provavelmente, uma palavra formada por onomatopéia. Seria, então, a tentativa

de reprodução de um som a partir da palavra “rezar”. Bem, quando uma pessoa

reza, ela fala baixo, quase entre os dentes, não é? Por isso

Rezingar = resmungar / falar entre dentes / falar resmungando, reclamando

Esse é o significado da palavra “rezingar”.

O verbo “roçar”

Observe o verbo “roçar” na música “O meu amor”, de Chico Buarque.

O meu amor
tem um jeito manso que é só seu
de me deixar maluca
quando me roça a nuca
e quase me machuca
com a barba malfeita
e de pousar as coxas
entre as minhas coxas
quando ele se deita, ai

Diz a letra: “Quando me roça a nuca…”. Roçar a nuca

pressupõe contato físico, proximidade.

A palavra “roçar” é da mesma família de “romper” e significa “arrancar”. É justamente

o que se faz numa roça, numa pastagem: é preciso que se arranque o mato para fazer roças

no terreno. Nesse caso, é preciso que haja um certo contato, por exemplo,

da ferramenta com o próprio mato que vai ser arrancado.

Roçar a nuca e roçar a terra possuem o mesmo verbo, que remonta à idéia de romper.

“Súbito”, “bardo”, “eunuco”, “harém”..

Veja este trecho da canção “Êxtase”, de Guilherme Arantes:

…Espero que a música
que eu canto agora
possa expressar
o meu súbito amor…

O autor utilizou a palavra “súbito”. E “súbito” quer dizer o quê?

Súbito= de uma hora para outra, de repente,
de súbito, subitamente, repentinamente

O termo “súbito” tem aumentativo: “supetão”.

Meu tio chegou de supetão = Meu tio chegou repentinamente

Curiosamente, “supetão” é mais corrente no dia-a-dia que “súbito”.

Por falar em palavras que não usamos no dia-a-dia, tomemos a letra da canção “Uns versos”, gravada por Maria Bethânia, na qual aparecem algumas palavras pouco comum na linguagem cotidiana:

Sou seu fado, sou seu bardo
se você quiser ouvir
o seu eunuco, o seu soprano
o seu arauto…

Na canção há pelo menos quatro palavras interessantes. Uma delas é “bardo“. “Bardo” é o poeta heróico entre os celtas e gálios; também pode ser simplesmente o poeta, o trovador. Shakeaspeare é o Grande Bardo.

Outra palavra interessante é “eunuco“. Para quem não se lembra, “eunuco” é o homem que, no Oriente, é encarregado de tomar conta do harém. “Harém” é aquele local do palácio dos sultões muçulmanos em que ficam encerradas as odaliscas. Por essa razão, pode-se deduzir por que o eunuco é sempre um homem castrado.

Também vimos na letra da canção as palavras “soprano”, que é a mulher ou menino que tem voz aguda, e “arauto”. Arauto é aquele que anuncia, aquele que traz a notícia, o mensageiro.

 

“Voar” e “avoar”

Chico Buarque escreveu uma canção maravilhosa, chamada “Paratodos”,

na qual ele mexe com duas palavrinhas que dão o que falar:

… Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho (…)
O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro

Chico Buarque usou a palavra “avoando“, do verbo “avoar”. É a forma variante do

verbo “voar” e está no dicionário. Muitas palavras na língua portuguesa têm as

chamadas formas variantes, ou formas paralelas. Observe outros exemplos:

juntar – ajuntar
intrincado – intricado
covarde – cobarde

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