Um teco do seu tempo

 
Paralelamente ao processamento em lote, outra inovação ocorreu no início dos
anos 50: o armazenamento de programas e dados em meio magnético, primeiramente
rolos de fita (parecidos com os rolos de fitas de áudio utilizados nos estúdios
de gravação de música), e, posteriormente, discos magnéticos, dispensando
o uso dos cartões perfurados. Mais rápidas e confiáveis, as fitas magnéticas podiam
armazenar, num carretel de 12 polegadas, várias estantes de cartões perfurados.
O passo seguinte, os discos magnéticos, permitiam que os dados fossem
armazenados e acessados em qualquer ordem. No caso das fitas, era necessário
“pesquisar” o carretel todo até encontrar o dado ou programa correto.
Mas a quantidade de programas a serem processados aumentava rapidamente.
Aquele usuário do programa pequeno não tinha mais paciência para esperar
tanto. Até que uma solução despontou no horizonte. Na virada da década de 60,
computadores mais potentes e com mais memória permitiam que vários programas
fossem armazenados na memória e executados simultaneamente. Eu disse
simultaneamente? Oops, não é bem assim. Os sistemas operacionais da época,
muito mais modernos, eram capazes de armazenar e cuidar da integridade desses
programas concorrentes na memória. Também faziam uma “mágica” muito
interessante, dividindo o tempo do processador em “fatias” e destinando-as igualmente
para cada programa. Era o novíssimo conceito de time sharing: como é
impossível que um só processador execute vários programas ao mesmo tempo,
ele os escalona para executar um pedaço de cada por vez. Enquanto o processador
está cuidando das tarefas de um dos programas, os outros ficam em estado de
espera. Como a velocidade desse chaveamento entre os programas é muito alta,
os usuários não o percebem. Muitos programas rodando podem degradar o desempenho
do computador como um todo, mas o usuário não toma conhecimento
de que, na maior parte do tempo, sua aplicação está paralisada.
Adentrando alguns anos na década de 60, lá por 1962, era imperativo que,
não apenas um, mas diversos usuários utilizassem o computador ao mesmo

tempo. Não havia mais a figura do operador de computador:

foram criados
terminais de acesso3 nos quais os usuários interessados podiam, diretamente,
chamar seus programas e fazer suas tarefas sem auxílio do CPD. Cada setor ou
departamento da empresa ou governo tinha seu terminal de computador e,
com ele, poderia operá-lo. Isso trouxe grandes problemas para o sistema
operacional resolver: além de gerenciar vários programas, deveria gerenciar
vários usuários, cada um rodando mais de um programa, e ainda cuidar da
segurança (apenas usuários cadastrados poderiam ter acesso), integridade dos
dados, suporte a terminais, comunicação entre os terminais e a CPU.
Nosso SO, que na década de 50 era muito simples, tinha que gerenciar tudo
isso. Dureza, não?
O primeiro computador comercial cujo sistema operacional suportava múltiplos
usuários era o PDP-1, da DEC (Digital Equipment Corporation). Foi nesse
computador que a primeira aplicação exclusiva para um terminal de vídeo
foi escrita: o jogo Spacewar, de Steve Russel, programador do MIT. Isso foi em
1962. A DEC havia doado o caríssimo terminal de vídeo ao MIT e certamente
não esperava que fosse usado para esse fim.
3 É interessante notar que terminais de vídeo, como conhecemos, apareceram no início da década de 60.
Entretanto, Sistemas Operacionais como o Multics e as primeiras versões do Unix foram escritas utilizando,
além dos terminais de vídeo, os velhos terminais de teletipo, ou seja, máquinas de escrever adaptadas para
poder alimentar, pelo teclado, o computador com dados e imprimir as saídas dos programas e interações
do usuário. Mesmo com o advento dos terminais de vídeo, os velhos terminais de teletipo continuaram a
ser utilizados até a metade da década de 80. É por essa razão que os terminais dos Unix são chamados de
tty: é uma abreviação de teletipo (teletype, em inglês).
modelo de S/360 que rodava em qualquer computador da série. Assim, uma
empresa poderia adquirir um S/360-25 (o menorzinho e mais barato) e seguramente
migrar para modelos maiores sem necessidade de retreinamento de funcionários
ou desenvolvimento de novos programas.
E os minis?
Oportunamente falamos, ali atrás, em PDP-1. Este não era um mainframe, mas
justamente o oposto. Chamado de minicomputador, este espécime (e seus descendentes,
sendo os mais conhecidos o PDP-9 e o PDP-11) era um equipamento
de menos capacidade de processamento, mas que possuía o atrativo de ser
barato e pequeno. Utilizava sistemas operacionais mais simples e eram utilizados
em controles automáticos e tarefas em que precisão, vários programas
simultâneos ou velocidade não eram importantes. Entretanto, com o avanço
tecnológico da década, lá por 68 ou 69, os minis eram tão poderosos quanto
seus irmãos maiores de dez anos antes. Muitos acabaram substituindo alguns
mainframes mais antigos e foram a base para a criação de um dos melhores
sistemas operacionais de todos os tempos: o Unix

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